Capítulo XI - Leo
LEO ACHOU QUE TINHA OUVIDO o grito de Hazel:
— Vá! Eu cuido de Nico!
Como se Leo pretendesse voltar. Claro, ele esperava que di Angelo estivesse bem, mas tinha seus próprios problemas a resolver. Galgou os degraus com Jason e Frank logo atrás dele.
A situação no convés era ainda pior do que ele temia.
O treinador Hedge e Piper tentavam se libertar da fita adesiva, enquanto um dos macacos anões demoníacos dançava pelo convés, pegando tudo o que não estivesse preso e enfiando em um saco. Tinha cerca de um metro e vinte de altura, ainda mais baixo que o treinador Hedge, com pernas arqueadas e pés de chimpanzé, e suas roupas eram tão extravagantes que deixavam Leo tonto. A calça xadrez verde com bainha virada era presa por suspensórios vermelhos sobre uma blusa feminina listrada de preto e rosa. Usava meia dúzia de relógios de ouro em cada braço e um chapéu de caubói com estampa de zebra, que tinha uma etiqueta de preço pendurada na aba. Seu corpo era coberto por pelos ruivos desgrenhados, embora noventa por cento de seus pelos corporais parecessem estar concentrados nas imensas sobrancelhas.
Leo mal formulara a pergunta Onde está o outro anão? quando ouviu um clique atrás de si e percebeu que levara os amigos para uma armadilha.
— Abaixem-se!
Ele caiu no convés no momento da explosão ensurdecedora.
Anotação mental, pensou Leo, ainda grogue. Não deixar caixas de granadas mágicas onde anões possam alcançá-las.
Ao menos estava vivo. Leo vinha fazendo experiências com todo tipo de armamento a partir da esfera de Arquimedes que recuperara em Roma. Criara granadas que podiam soltar ácido, fogo, estilhaços ou pipoca amanteigada. (Ei, você nunca sabe quando vai ter fome durante uma batalha.)
A julgar pelo zumbido nos ouvidos de Leo, o anão detonara uma granada de luz e som, que ele enchera com um raro frasco de extrato puro e líquido da música de Apolo. Não era letal, mas fazia Leo se sentir como se tivesse caído de barriga em uma piscina.
Ele tentou se levantar. Seus membros não respondiam. Alguém estava puxando a sua cintura, talvez um amigo tentando ajudá-lo? Não. Seus amigos não cheiravam a jaulas de macacos extremamente fedorentas.
Conseguiu se virar. Sua visão estava fora de foco e em tom rosado, como se o mundo estivesse imerso em geleia de morango. Um rosto sorridente e grotesco pairava sobre ele. O anão de pelo castanho vestia-se ainda pior do que o amigo: usava um chapéu-coco verde, como o de um leprechaun, brincos compridos de diamantes e uma camisa preta e branca com listras verticais. Ele exibiu o objeto que acabara de roubar – o cinto de ferramentas de Leo – e então se afastou dançando.
Leo tentou agarrá-lo, mas seus dedos estavam dormentes. O anão saltitou alegremente até a balista mais próxima, que seu amigo de pelo ruivo armava para o lançamento.
O anão de pelo castanho pulou sobre o projétil como se fosse um skate, e seu amigo o disparou para o céu.
Pelo Ruivo desfilou arrogantemente até o treinador Hedge. Deu um beijo estalado no rosto do sátiro e, em seguida, pulou na amurada. Ele fez uma reverência para Leo, tirando o chapéu de caubói de zebra, e deu um mortal de costas sobre a borda.
Leo conseguiu se levantar. Jason já estava de pé, tropeçando e esbarrando nas coisas. Frank se transformara em um gorila de dorso prateado (por quê? Leo não sabia. Talvez para se comunicar com os macacos anões), mas a granada de luz e som o atingira em cheio. Ele estava caído no convés, língua de fora, com os olhos de gorila revirados para cima.
— Piper! — Jason cambaleou até o leme e cuidadosamente retirou a mordaça dela.
— Não perca tempo comigo! Vá atrás deles!
No mastro, o treinador Hedge resmungou:
— Humm!
Leo imaginou que aquilo queria dizer “MATEM-NOS!”. Era fácil de traduzir, já que a maioria das frases do treinador envolvia a palavra matar.
Leo olhou para o painel de controle. Sua esfera de Arquimedes não estava mais lá. Ele levou a mão à cintura, onde deveria estar seu cinto de ferramentas. Estava voltando a pensar com clareza e se encheu de indignação. Aqueles anões haviam atacado seu navio. Tinham roubado os seus bens mais preciosos.
A cidade de Bolonha estendia-se abaixo deles: era um quebra-cabeça de edifícios de telhas vermelhas em um vale cercado por colinas verdejantes. Se Leo não encontrasse os anões em algum lugar daquele labirinto de ruas... Não. O fracasso não era uma opção. E nem esperar os seus amigos se recuperarem.
Ele se voltou para Jason.
— Você está se sentindo bem o bastante para controlar os ventos? Preciso de uma carona.
Jason franziu a testa.
— Claro, mas...
— Bom — disse Leo. — Temos que pegar alguns macacos.
* * *
Jason e Leo aterrissaram em uma grande praça repleta de prédios governamentais de mármore branco e cafés ao ar livre. Bicicletas e Vespas entupiam as ruas em torno, mas a praça estava vazia, exceto pelos pombos e alguns velhos tomando café expresso.
Nenhum dos moradores parecia notar o enorme navio de guerra grego pairando sobre a
praça, ou o fato de que Jason e Leo desceram dele voando, Jason empunhando uma espada de ouro, e Leo... bem, Leo de mãos vazias.
— Para onde? — perguntou Jason.
Leo olhou para ele.
— Bem, eu não sei. Deixe-me pegar o GPS de rastreamento de anões em meu cinto de ferramentas e... Ah, espere! Não tenho um GPS rastreador de anões... e nem o meu cinto de ferramentas!
— Tudo bem — resmungou Jason. Ele olhou para o navio como se estivesse tentando se orientar e, em seguida, apontou para o outro lado da praça. — A balista lançou o primeiro anão naquela direção, eu acho. Vamos.
Atravessaram um mar de pombos, então entraram em uma rua transversal com lojas de roupas e sorveterias. As calçadas tinham fileiras de colunas brancas cobertas de pichações. Alguns mendigos pediam trocados (Leo não sabia italiano, mas o significado era óbvio). Ele não parava de levar a mão à cintura, esperando que seu cinto de ferramentas reaparecesse magicamente. Não reapareceu. Tentou não entrar em pânico, mas dependia daquele cinto para quase tudo. Era como se alguém tivesse roubado uma de suas mãos.
— Nós vamos encontrá-lo — prometeu Jason.
Normalmente, Leo teria se tranquilizado. Jason tinha talento para se manter calmo durante uma crise e já tirara Leo de vários apuros. Hoje, porém, Leo só conseguia pensar naquele estúpido biscoito da sorte que quebrara em Roma. A deusa Nêmesis prometera ajudá-lo, e ajudou: deu a ele o código para ativar a esfera de Arquimedes. Naquele dia, Leo não tivera outra escolha a não ser usá-la para salvar os amigos. Mas Nêmesis o avisara que sua ajuda teria um preço.
Leo se perguntou se esse preço já teria sido pago. Percy e Annabeth se foram. O navio estava centenas de quilômetros fora do curso, a caminho de um desafio impossível. Seus amigos contavam com ele para vencer um gigante terrível. E agora não tinha nem o seu cinto de ferramentas nem a esfera de Arquimedes.
Vinha tão ocupado sentindo pena de si mesmo que não percebeu onde estavam até que Jason agarrou seu braço.
— Veja.
Leo olhou para cima. Tinham chegado a uma praça menor. Diante deles havia uma enorme estátua de bronze de Netuno completamente nu.
— Ai, deuses! — Leo desviou o olhar.
Ele não estava com a menor vontade de ver a genitália de um deus logo de manhã cedo.
O deus do mar estava de pé sobre uma grande coluna de mármore, no meio de uma fonte que não estava funcionando (o que parecia um tanto irônico). Em ambos os lados de Netuno sentavam-se despreocupadamente alguns cupidos, tipo, e aí, beleza? O próprio Netuno (evite olhar para a virilha) projetava o quadril para o lado em um movimento à Elvis Presley. Segurava o tridente frouxamente com a mão direita e estendia a esquerda para a frente como se estivesse abençoando Leo, ou, talvez, tentando fazê-lo levitar.
— Alguma pista? — perguntou Leo.
Jason franziu a testa.
— Talvez sim, talvez não. Há estátuas dos deuses por toda a Itália. Eu me sentiria melhor se encontrasse Júpiter. Ou Minerva. Qualquer um, menos Netuno.
Leo subiu na fonte seca. Pousou a mão sobre o pedestal da estátua, e uma enxurrada de informações percorreu as pontas de seus dedos. Ele sentiu engrenagens de bronze celestial, alavancas mágicas, molas e pistões.
— É mecânico — disse ele. — Talvez seja a entrada para o esconderijo secreto dos anões.
— Uooou! — gritou uma voz próxima. — Esconderijo secreto?
— Eu quero um esconderijo secreto! — gritou outra voz mais acima.
Jason recuou, espada em punho. Leo quase ficou com torcicolo tentando olhar para dois lugares ao mesmo tempo. O anão de pelo ruivo com chapéu de caubói estava a uns trinta metros deles, sentado a uma das mesas do café mais próximo tomando um expresso com seu pé de macaco. O anão de pelo castanho com chapéu-coco verde estava empoleirado no pedestal de mármore, aos pés de Netuno, pouco acima da cabeça de Leo.
— Se tivéssemos um esconderijo secreto — disse Pelo Ruivo — gostaria que tivesse um poste de bombeiros.
— E um toboágua! — disse Pelo Castanho, que tirava ferramentas aleatórias do cinto de Leo, jogando fora chaves de porcas, martelos e grampeadores.
— Pare com isso!
Leo tentou agarrar os pés do anão, mas não conseguia alcançar o topo do pedestal.
— Muito baixinho? — perguntou Pelo Castanho, compreensivo.
— Você está me chamando de baixinho? — Leo olhou em volta procurando algo para arremessar, mas não havia nada além de pombos, e ele duvidava que conseguisse agarrar algum. — Devolva o meu cinto, seu estúpido...
— Ora, ora! — interrompeu Pelo Castanho. — Nós ainda nem nos apresentamos! Sou Acmon. E o meu irmão ali...
— ... é o bonitão! — O anão de pelo ruivo ergueu a xícara de café expresso. A julgar pelos olhos dilatados e o sorriso meio louco, não precisava de mais cafeína. — Passalos! Cantor de canções! Bebedor de café! Ladrão de coisas brilhantes!
— Ora, vamos! — gritou seu irmão, Acmon. — Eu roubo muito melhor do que você.
Passalos deu uma risadinha irônica.
— Até parece! Só se for melhor em roubar doce de criança!
Ele pegou uma adaga – a adaga de Piper – e começou a palitar os dentes.
— Ei! — gritou Jason. — Essa adaga é da minha namorada!
Ele investiu contra Passalos, mas o anão de pelo ruivo era muito rápido. Saltou da cadeira para a cabeça de Jason, depois deu uma cambalhota e aterrissou ao lado de Leo, com os braços peludos em torno da cintura do semideus.
— Você me salva? — pediu o anão.
— Cai fora!
Leo tentou empurrá-lo, mas Passalos deu uma cambalhota para trás e saiu de seu alcance. A calça de Leo imediatamente escorregou até os joelhos.
Ele olhou para Passalos, que agora estava sorrindo e segurando uma pequena tira dentada de metal. De alguma forma, o anão roubara o zíper da calça de Leo.
— Devolva... o zíper... idiota! — gaguejou Leo, tentando brandir o punho e erguer a calça ao mesmo tempo.
— Ah, não é brilhante o suficiente. — Passalos jogou o zíper fora.
Jason atacou com sua espada. Passalos pulou bem alto e de repente estava sentado no pedestal da estátua, ao lado do irmão.
— Diga que não tenho os meus truques — gabou-se Passalos.
— Tudo bem — disse Acmon. — Você não tem os seus truques.
— Ora! — disse Passalos. — Cadê o cinto de ferramentas? Quero ver.
— Não! — Acmon o afastou com uma cotovelada. — Você já tem a faca e a bola brilhante.
— É, a bola brilhante é bonita.
Passalos tirou o chapéu de caubói. Como um mágico tirando um coelho de uma cartola, ele fez surgir a esfera de Arquimedes e começou a mexer nos antigos discos de bronze.
— Pare! — gritou Leo. — Essa é uma máquina sensível.
Jason ficou ao lado de Leo e olhou para os anões.
— Quem são vocês dois, afinal de contas?
— Os cêrcopes! — Acmon olhou para Jason com suspeita. — E aposto que você é um filho de Júpiter, não é mesmo? Eu sempre acerto.
— Igual ao Nádegas Negras — concordou Passalos.
— Nádegas Negras?
Leo resistiu ao impulso de tentar agarrar os pés dos anões de novo. Ele tinha certeza de que Passalos quebraria a esfera de Arquimedes a qualquer momento.
— É, sabe? — disse Acmon, sorrindo. — Hércules. Nós o chamávamos de Nádegas Negras porque ele costumava sair por aí pelado. Ele ficou com a bunda tão bronzeada que...
— Pelo menos tinha senso de humor! — disse Passalos. — Ele ia nos matar quando o roubamos, mas nos deixou ir porque gostou de nossas piadas. Não era como vocês dois. Ranzinzas, ranzinzas!
— Ei, eu tenho senso de humor — rosnou Leo. — Devolva as nossas coisas e vou contar uma piada de morrer de rir.
— Boa tentativa! — Acmon tirou uma chave catraca do cinto de ferramentas e girou-a como se fosse uma matraca. — Ah, muito legal! Vou ficar com isso, com certeza! Obrigado, Nádegas Azuis!
Nádegas Azuis?
Leo olhou para baixo. Suas calças haviam escorregado até os tornozelos outra vez, revelando sua cueca azul.
— Chega! — gritou. — Devolvam. Minhas coisas. Agora. Ou vocês vão ver como anões em chamas são engraçados.
Suas mãos se incendiaram.
— Ah, agora sim — aprovou Jason, apontando a espada para o céu.
Nuvens negras começaram a se juntar sobre a praça. Ouviu-se um trovão.
— Ai, que meda! — ironizou Acmon.
— Sim — concordou Passalos. — Se ao menos tivéssemos um local secreto para nos escondermos.
— Infelizmente, esta estátua não é a porta de um esconderijo secreto — disse Acmon. — Tem uma finalidade diferente.
Leo sentiu um frio no estômago. O fogo de suas mãos se apagou e ele percebeu que algo estava muito errado.
— Uma armadilha — gritou, pulando para fora da fonte.
Infelizmente, Jason estava muito ocupado convocando a sua tempestade.
Leo, caído no chão, virou-se a tempo de ver cinco cordas douradas saírem dos dedos da estátua de Netuno. Uma quase prendeu os seus pés. As outras cordas foram lançadas na direção de Jason, laçando-o como se fosse um bezerro em um rodeio e deixando-o de cabeça para baixo.
Um relâmpago atingiu o tridente de Netuno, enviando ondas de eletricidade por toda a estátua, mas os cêrcopes já tinham desaparecido.
— Bravo! — Acmon aplaudia de uma mesa de um café próximo. — Você dá uma bela pinhata, filho de Júpiter!
— Dá mesmo! — concordou Passalos. — Hércules já nos pendurou de cabeça para baixo, sabia? Ah, como a vingança é doce!
Leo conjurou uma bola de fogo. Ele a arremessou mirando em Passalos, que tentava fazer malabarismos com dois pombos e a esfera de Arquimedes.
— Opa! — O anão esquivou-se da explosão, derrubando a esfera e deixando os pombos voarem.
— Hora de ir embora! — decidiu Acmon.
Ele baixou a ponta do chapéu-coco e saltou de mesa em mesa. Passalos olhou para a esfera de Arquimedes, que rolara até parar entre os pés de Leo.
Leo conjurou outra bola de fogo.
— Pode vir — rosnou.
— Tchau!
Passalos deu um mortal de costas e seguiu o irmão.
Leo pegou a esfera de Arquimedes e correu até Jason, que ainda estava pendurado de cabeça para baixo, completamente amarrado, com exceção do braço da espada. Tentava cortar as cordas com a lâmina de ouro, mas não estava se saindo muito bem.
— Espere — disse Leo. — Se eu encontrar um interruptor para soltar você...
— Vá! — rosnou Jason. — Eu o encontro quando sair dessa.
— Mas...
— Vá atrás deles!
A última coisa que Leo queria era ficar a sós com os anões macacos, mas os cêrcopes já estavam dobrando a esquina no outro extremo da praça. Leo deixou Jason pendurado e correu atrás deles.
Capítulo XII - Leo
OS ANÕES NÃO SE ESFORÇARAM muito para despistá-lo, o que deixou Leo desconfiado. Ficavam sempre no seu campo de visão, correndo sobre os telhados de telhas vermelhas, derrubando jardineiras das janelas, comemorando, gritando e deixando um rastro de parafusos e pregos do seu cinto de ferramentas, quase como se quisessem ser seguidos.
Leo correu atrás deles, soltando palavrões a cada vez que suas calças caíam. Ele dobrou uma esquina e viu duas antigas torres de pedra elevando-se até o céu, lado a lado, muito mais altas do que qualquer outra construção nas redondezas – talvez fossem torres de vigia medievais.
Inclinavam-se em direções diferentes, como as alavancas de marcha de um carro de corrida. Os cêrcopes escalaram a torre da direita. Quando chegaram ao topo, deram a volta até a parte de trás e desapareceram.
Teriam entrado? Leo enxergava algumas pequenas janelas cobertas com grades de metal lá no alto, mas duvidava que aquilo detivesse os anões. Ficou olhando durante um minuto, mas os cêrcopes não reapareceram. O que significava que Leo teria de subir até lá e procurar por eles.
— Ótimo — murmurou.
Não tinha nenhum amigo voador para levá-lo até lá. O navio estava longe demais para ele poder pedir ajuda. Talvez pudesse improvisar algum tipo de dispositivo voador com a esfera de Arquimedes, mas só se tivesse o seu cinto de ferramentas – coisa que não tinha.
Leo examinou as construções vizinhas, tentando pensar. Meio quarteirão adiante, duas portas de vidro se abriram e uma senhora idosa saiu devagar, carregando sacolas plásticas de compras.
Um mercado? Humm...
Leo apalpou os bolsos. Para a sua surpresa, ainda tinha alguns euros dos dias que passaram em Roma. Aqueles anões idiotas tinham levado tudo, menos o seu dinheiro.
Correu até a loja o mais rápido que sua calça sem zíper permitia.
Percorreu os corredores procurando coisas que pudessem ser úteis. Não sabia dizer em italiano “Olá, onde estão seus produtos químicos perigosos, por favor?”, mas tudo bem. Também não queria acabar em uma prisão da Itália.
Felizmente, não precisava ler rótulos. Bastava pegar um tubo de pasta de dente para saber que continha nitrato de potássio. Encontrou carvão. Encontrou açúcar e bicarbonato de sódio. A loja vendia fósforos, repelente contra insetos e papel-alumínio. Praticamente tudo de que precisava, além de um fio de varal que poderia usar como cinto. Acrescentou às compras um pouco de junk food italiana, apenas para disfarçar seus produtos mais suspeitos e, em seguida, levou tudo até a caixa registradora. Uma senhora de olhos arregalados fez-lhe algumas perguntas que ele não compreendeu, mas conseguiu pagar, encher a sacola de compras e ir embora correndo.
Ele se agachou junto à porta mais próxima, de onde poderia ficar de olho nas torres. Então começou a trabalhar, conjurando uma fogueira para secar e cozinhar materiais que, de outro modo, teriam levado dias para ficarem prontos.
Vez por outra, lançava um olhar furtivo para a torre, mas não havia nenhum sinal dos anões. Esperava que ainda estivessem lá em cima. Preparar seu arsenal demorou apenas alguns minutos – ele era realmente muito bom nisso – mas pareceram horas.
Jason não apareceu. Talvez ainda estivesse preso na fonte de Netuno, ou percorrendo as ruas à procura de Leo. Ninguém mais do navio veio ajudar. Provavelmente estavam ocupados tirando os elásticos cor-de-rosa do cabelo do treinador Hedge.
Isso significava que Leo estava sozinho com sua sacola de junk food e algumas armas altamente improvisadas feitas de açúcar e creme dental. Ah, e a esfera de Arquimedes. Era um detalhe importante. Esperava não tê-la estragado enchendo-a de pó químico.
Correu para a torre e encontrou a entrada. Começou a subir a escada em espiral, apenas para ser detido diante de uma bilheteria por algum zelador que gritou com ele em italiano.
— Sério mesmo? — perguntou Leo. — Olha, cara, sua torre está infestada de anões macacos. E sou o dedetizador — ergueu a lata de inseticida — está vendo? Dedetizador Molto Buono. Borrifa, borrifa, Ahhhhh!
Ele imitou um anão desmanchando-se, apavorado, o que, por algum motivo, o italiano não pareceu entender.
O sujeito simplesmente estendeu a mão, pedindo dinheiro.
— Caramba, homem — resmungou Leo. — Gastei todo o meu dinheiro em explosivos caseiros e outras coisas — ele remexeu em sua sacola de compras — será que você aceitaria... hã... o que é isso?
Leo ergueu um saco amarelo e vermelho de algo chamado Fonzies. Achava que fosse algum tipo de batatas chips. Para sua surpresa, o zelador deu de ombros e aceitou o saco.
— Avanti!
Leo continuou a subir, mas disse a si mesmo para não se esquecer de estocar Fonzies. Aparentemente, funcionavam melhor do que dinheiro na Itália.
A escada subia, subia e subia. A torre inteira parecia ser apenas uma desculpa para construírem a escada.
Parou ao chegar a um patamar e encostou-se em uma estreita janela gradeada, tentando recuperar o fôlego. Suava como um porco, e seu coração batia forte.
Cêrcopes idiotas. Leo imaginou que assim que chegasse ao topo eles fugiriam antes que tivesse a chance de usar as suas armas, mas precisava tentar.
Continuou subindo.
Finalmente, com as pernas moles como macarrão cozido, chegou ao topo.
O cômodo era do tamanho de um armário de vassouras, com janelas gradeadas nas quatro paredes. Havia sacos de tesouros empilhados pelos cantos e objetos brilhantes espalhados pelo chão. Leo viu a adaga de Piper, um velho livro com capa de couro, alguns dispositivos mecânicos interessantes e ouro suficiente para causar uma indigestão no cavalo de Hazel.
A princípio, achou que os anões tinham ido embora. Então, olhou para cima. Acmon e Passalos estavam pendurados de cabeça para baixo, presos às vigas pelos pés de chimpanzé, jogando pôquer antigravidade. Ao verem Leo, ambos jogaram as suas cartas como confete e irromperam em aplausos.
— Eu disse que ele viria! — gritou Acmon, felicíssimo.
Passalos deu de ombros, pegou um de seus relógios de ouro e o entregou ao irmão.
— Você ganhou. Não achei que ele fosse tão burro.
Ambos pularam das vigas. Acmon usava o cinto de ferramentas. Estava tão perto que Leo teve que resistir ao impulso de tentar agarrá-lo.
Passalos ajeitou o chapéu de caubói e chutou a grade da janela mais próxima, abrindo-a.
— O que o faremos escalar agora, irmão? A cúpula de San Luca?
Leo queria estrangular os anões, mas forçou um sorriso.
— Ah, isso parece divertido! Mas, antes de irem, saibam que esqueceram algo brilhante.
— Impossível! — Acmon fez uma careta. — Fomos muito cuidadosos.
— Tem certeza?
Leo ergueu a sacola de supermercado.
Os anões se aproximaram. Como Leo esperava, sua curiosidade era tão grande que não conseguiam resistir.
— Vejam.
Leo pegou a sua primeira arma, um punhado de produtos químicos secos embrulhados em uma folha de papel-alumínio, e acendeu-a com a mão.
Afastou-se antes da explosão, mas os anões estavam olhando diretamente para o artefato. Pasta de dente, açúcar e repelente de insetos não eram tão bons quanto a música de Apolo, mas causavam uma explosão de som e luz bem decente.
Os cêrcopes gritaram, levando as patas aos olhos. Cambalearam em direção à janela, mas Leo já detonara seus rojões caseiros, mirando-os nos pés descalços dos anões para desequilibrá-los. Então, só para garantir, Leo girou um disco em sua esfera de Arquimedes, o que espalhou uma nuvem branca por toda a sala.
A fumaça não afetava Leo. Como era imune ao fogo, ele entrara em fogueiras fumacentas várias vezes, suportara sopros de dragões e limpara forjas ardentes. Enquanto os anões tossiam e ofegavam, recuperou o cinto de ferramentas que estava com Acmon, retirou calmamente alguns cabos de bungee jump, e amarrou os anões.
— Meus olhos! — exclamou Acmon, tossindo. — Meu cinto de ferramentas!
— Meus pés estão pegando fogo! — lamentou-se Passalos. — Isso não é nada brilhante! Não mesmo!
Quando teve certeza de que estavam devidamente imobilizados, Leo arrastou os cêrcopes até um canto e começou a vasculhar seus tesouros. Recuperou a adaga de Piper, alguns de seus protótipos de granadas e uma dezena de outros objetos que os anões haviam roubado do Argo II.
— Por favor! — lamentou-se Acmon. — Não tome nossos brilhos!
— Vamos fazer um acordo! — sugeriu Passalos. — Nós lhe daremos dez por cento se você deixar a gente ir embora!
— Acho que não — murmurou Leo. — É tudo meu agora.
— Vinte por cento!
Naquele momento, ecoou um trovão. Relâmpagos brilharam e as barras da janela mais próxima começaram a derreter, transformando-se em tocos incandescentes de ferro derretido.
Jason entrou voando como Peter Pan, com a eletricidade crepitando em torno dele e de sua espada de ouro fumegante.
Leo assobiou, admirado.
— Cara, você acaba de desperdiçar uma entrada triunfal.
Jason franziu a testa. Então, viu os cêrcopes amarrados.
— Mas que...
— Fiz tudo sozinho — interrompeu Leo. — Sou super especial. Como você me encontrou?
— Hã, a fumaça — conseguiu dizer Jason. — E ouvi estampidos. Houve um tiroteio por aqui?
— Tipo isso.
Leo atirou-lhe a adaga de Piper e continuou a vasculhar o lugar. Lembrou-se do que Hazel dissera sobre encontrar um tesouro que os ajudaria em sua jornada, mas não sabia exatamente o que estava procurando. Havia moedas, pepitas de ouro, joias, clipes de papel, rolos de papel alumínio, abotoaduras.
E sempre voltava a topar com alguns objetos que não pareciam combinar com o conjunto. O primeiro era um antigo dispositivo de navegação feito de bronze, como o astrolábio de um navio. Estava muito danificado e parecia que algumas de suas peças estavam faltando, mas ainda assim Leo o achou fascinante.
— Pode levar! — ofereceu Passalos. — Foi Odisseu quem fez, sabia? Leve-o e deixe a gente ir embora.
— Odisseu? — perguntou Jason. — Tipo, o Odisseu?
— Ele mesmo! — berrou Passalos. — Fez isso quando já estava velho, em Ítaca. É uma de suas últimas invenções. E nós a roubamos!
— Como funciona? — perguntou Leo.
— Ah, não funciona — disse Acmon. — Acho que é por causa de um cristal que está faltando.
Ele olhou para o irmão em busca de ajuda.
— “É o meu maior arrependimento” — disse Passalos. — “Deveria ter pegado um cristal.” Era isso que ele resmungava durante o sono, na noite em que o roubamos — Passalos deu de ombros — não faço ideia do que queria dizer, mas o brilhante é todo seu! Podemos ir agora?
Leo não tinha certeza de por que queria o astrolábio. O objeto estava obviamente quebrado, e ele tinha a sensação de que não era isso que Hécate queria que encontrassem. Ainda assim, guardou-o em um dos bolsos mágicos de seu cinto de ferramentas.
Voltou a atenção para o outro item estranho: o livro com capa de couro. O título era folheado a ouro, escrito em uma língua que Leo não conseguia entender, mas era a única coisa brilhante naquele livro. E não achava que os cêrcopes gostassem muito de ler.
— O que é isso?
Ele balançou o livro diante dos anões, que ainda estavam lacrimejando por causa da fumaça.
— Nada! — disse Acmon. — Só um livro. Tinha uma bela capa de ouro, por isso o roubamos dele.
— Dele quem? — perguntou Leo.
Acmon e Passalos trocaram um olhar nervoso.
— Um deus menor — disse Passalos. — Em Veneza. Realmente, não é nada.
— Veneza — Jason franziu a testa para Leo — não é para lá que devemos ir em seguida?
— É.
Leo examinou o livro. Não entendia o que estava escrito, mas havia muitas ilustrações: foices, plantas diferentes, uma imagem do sol, uma parelha de bois puxando uma carroça. Não conseguia ver a importância daquilo, mas se o livro fora roubado de um deus menor em Veneza – o próximo lugar que Hécate lhes dissera para visitar – então era aquilo que eles estavam procurando.
— Onde, exatamente, podemos encontrar esse deus menor? — perguntou Leo.
— Não! — gritou Acmon. — Você não pode devolver para ele! Se ele descobrir que a gente o roubou...
— Ele vai destruir vocês — deduziu Jason. — E é o que vamos fazer se não responderem, e estamos muito mais perto de vocês.
Encostou a ponta da espada na garganta peluda de Acmon.
— Tudo bem, tudo bem! — gritou o anão. — La Casa Nera! Calle Frezzeria!
— Isso é um endereço? — perguntou Leo.
Os anões assentiram, desesperados.
— Por favor, não conte que roubamos — implorou Passalos. — Ele não é nada legal!
— Quem é ele? — perguntou Jason. — Que deus?
— Eu... eu não posso dizer — gaguejou Passalos.
— É melhor falar logo — avisou Leo.
— Não — disse Passalos, apavorado. — Quer dizer, eu realmente não consigo dizer. Não consigo pronunciar! Tr... tri... É muito difícil!
— Truh — disse Acmon. — Tru-toh... Tem sílabas demais!
Ambos irromperam em lágrimas.
Leo não sabia se os cêrcopes estavam dizendo a verdade, mas era difícil ficar bravo com anões chorando, por mais malvestidos e irritantes que eles fossem.
Jason baixou a espada.
— O que você quer fazer com eles, Leo? Mandá-los para o Tártaro?
— Por favor, não! — choramingou Acmon. — Levaremos semanas para voltar.
— Isso se Gaia permitir! — fungou Passalos. — Ela controla as Portas da Morte agora. Vai ficar muito zangada conosco.
Leo olhou para os anões. Já enfrentara muitos monstros e nunca se sentira mal por dissolvê-los, mas aquilo era diferente. Teve que admitir que tinha alguma admiração por aqueles sujeitinhos. Eles pregavam boas peças e gostavam de coisas brilhantes. Leo se identificava com eles. Além disso, Percy e Annabeth estavam no Tártaro (Leo esperava que ainda estivessem vivos), caminhando em direção às Portas da Morte. A ideia de enviar aqueles macacos gêmeos até lá para enfrentar o mesmo pesadelo... Bem, não parecia certo.
Imaginou Gaia rindo de sua fraqueza: um semideus de coração mole demais para matar monstros. Lembrou-se de seu sonho sobre o Acampamento Meio-Sangue em ruínas, corpos de gregos e romanos espalhados pelos campos. Lembrou-se de Octavian, falando com a voz da deusa da terra: os romanos estão se deslocando a leste de Nova York. Eles avançam em direção ao seu acampamento, e nada poderá detê-los.
— Nada poderá detê-los — pensou Leo em voz alta. — Eu me pergunto...
— O quê? — indagou Jason.
Leo olhou para os anões.
— Farei um acordo com vocês.
Os olhos de Acmon se iluminaram.
— Trinta por cento?
— Vamos deixá-los com todo o seu tesouro — disse Leo — a não ser as coisas que nos pertencem, o astrolábio e este livro, que vamos devolver para o cara lá em Veneza.
— Mas ele vai nos destruir! — lamentou-se Passalos.
— Não vamos contar onde o conseguimos — prometeu Leo. — E não vamos matar vocês. Vamos deixá-los em liberdade.
— Hã, Leo...? — perguntou Jason, hesitante.
Acmon guinchou de alegria:
— Eu sabia que você era tão inteligente quanto Hércules! Vou chamá-lo de Nádegas Negras, o Retorno!
— Certo, não, obrigado — disse Leo. — Mas, em troca de pouparmos sua vida, vocês terão que fazer algo para nós. Vou enviá-los a um lugar para roubarem algumas pessoas, atormentá-las e infernizar a vida delas de todas as maneiras possíveis. Vocês terão de seguir exatamente as minhas instruções. Têm de jurar pelo Rio Estige.
— Juramos! — disse Passalos. — Roubar pessoas é a nossa especialidade!
— E adoro atormentar! — concordou Acmon. — Para onde estamos indo?
Leo sorriu.
— Já ouviram falar em Nova York?
Capítulo XIII - Percy
PERCY LEVARA A NAMORADA PARA passeios românticos antes. Este não era um deles.
Seguiam o Rio Flegetonte. Caminhavam com dificuldade sobre o solo negro de cacos de vidro. Saltavam fendas e se escondiam atrás de rochas sempre que o grupo de vampiras reduzia o passo à frente deles.
Era difícil ficar para trás o bastante para não serem notados e ao mesmo tempo perto o suficiente para não perderem de vista Kelli e suas amigas em meio ao ar escuro e enevoado. O calor do rio tostava a pele de Percy. Cada vez que respirava era como se estivesse inalando fibra de vidro com cheiro de enxofre. Quando ficavam com sede, o máximo que podiam fazer era tomar um gole refrescante de fogo líquido.
É. Percy sabia mesmo fazer uma garota se divertir.
Pelo menos o tornozelo de Annabeth parecia estar melhor. Ela quase não mancava mais. Seus vários cortes e arranhões tinham desaparecido. Ela prendera os cabelos louros com uma tira que rasgara da calça jeans e, na luz abrasadora do rio, seus olhos cinzentos brilhavam.
Apesar de exausta, imunda e vestida como uma mendiga, Percy achava que ela estava linda. E daí que estavam no Tártaro? E daí que tinham uma chance ínfima de sobreviver? Ficou tão feliz por estarem juntos que sentiu uma necessidade ridícula de sorrir.
Fisicamente, Percy também estava melhor, apesar de suas roupas parecerem ter passado por um furacão de cacos de vidro. Estava com sede, fome e morrendo de medo (mas não ia contar isso para Annabeth), porém estava livre do frio desesperançado do Rio Cócito. E por pior que fosse o gosto do fogo líquido, ele parecia lhe dar forças.
Era impossível ter noção do tempo. Continuavam a acompanhar penosamente o rio que cortava a paisagem. Por sorte, as empousai não caminhavam muito rápido. Arrastavam as pernas diferentes, uma de bronze, outra de burro, reclamando e discutindo entre si, aparentemente sem pressa de chegar às Portas da Morte.
Em certo momento, as vampiras, animadas, apertaram o passo e enxamearam em torno de algo que parecia uma carcaça lançada na praia às margens do rio. Percy não conseguiu identificar o que era... um monstro morto? Algum tipo de animal? As empousai a atacaram com voracidade.
Quando os demônios retomaram seu caminho, Percy e Annabeth foram até o local e nada encontraram além de alguns ossos quebrados e manchas reluzentes secando ao calor do rio. Percy não tinha a menor dúvida de que as empousai devorariam semideuses com o mesmo prazer.
— Vamos lá — ele afastou Annabeth gentilmente daquela cena — não queremos perdê-las de vista.
Enquanto caminhavam, Percy se lembrou da primeira vez em que enfrentara a empousa Kelli na orientação dos alunos de primeiro ano do ensino médio na Goode High School, quando ele e Rachel Elizabeth Dare ficaram presos na sala de música. Na época, parecia uma situação sem saída. Agora, daria qualquer coisa para que seus problemas fossem assim tão simples. Pelo menos naquele tempo estava no mundo mortal. Ali não havia para onde fugir.
Uau! Já estava até pensando na guerra contra Cronos como os bons tempos... Isso era triste.
Mantinha as esperanças de que as coisas fossem melhorar para ele e Annabeth, mas a vida de ambos só ficava cada vez mais perigosa, como se as Três Parcas estivessem lá em cima fiando o seu futuro com arame farpado em vez de fios só para ver quanto dois semideuses podiam aguentar.
Após alguns quilômetros, as empousai desapareceram por trás de uma elevação do terreno. Quando Percy e Annabeth chegaram lá, encontraram-se diante de outro precipício gigantesco.
O Rio Flegetonte despencava em uma série irregular de cascatas flamejantes. O grupo de mulheres demônios descia o precipício, pulando de uma saliência a outra como cabras montanhesas.
O coração de Percy quase saiu pela boca. Mesmo que ele e Annabeth chegassem ao fundo do abismo vivos, o futuro não era promissor. A paisagem abaixo deles era uma planície desolada e cinzenta de onde se projetavam árvores negras, como pelos de um inseto. O chão estava coberto de bolhas. De vez em quando uma delas inchava e explodia, fazendo surgir um monstro parecido com uma larva saída de um ovo.
De repente, Percy perdeu toda a fome.
Todos os monstros recém-formados rastejavam e mancavam na mesma direção, rumo a uma barreira de nuvens negras que engolia o horizonte como se uma tempestade se aproximasse. O Flegetonte seguia seu curso e, perto do centro da planície, encontrava outro rio de águas negras, quem sabe o Cócito? As duas correntes se misturavam em uma corredeira fervente e borbulhante e seguiam juntas na direção da névoa preta.
Quanto mais Percy olhava para aquela tempestade de escuridão, menos queria ir até lá. Aquilo podia esconder qualquer coisa: um oceano, um poço sem fundo ou um exército de monstros. Mas se as Portas da Morte ficassem naquela direção, era sua única chance de voltar para casa.
Espiou a borda do precipício.
— Queria que a gente pudesse voar.
Annabeth esfregou os braços.
— Lembra dos tênis voadores de Luke? Será que ainda estão por aqui?
Percy lembrava. Aqueles tênis tinham uma maldição que os fazia arrastar para o Tártaro qualquer um que os calçasse. Quase haviam levado Grover, seu melhor amigo.
— Eu me contentaria com uma asa-delta.
— Talvez não seja uma boa ideia.
Annabeth apontou para o alto, onde formas escuras aladas descreviam círculos, entrando e saindo das nuvens vermelho-sangue.
— Fúrias? — perguntou Percy.
— Ou algum outro tipo de demônio — supôs Annabeth. — No Tártaro há milhares deles.
— Incluindo o tipo que devora asas-deltas — comentou Percy. — Está bem, então vamos descer o penhasco.
Ele não conseguia mais ver as empousai lá embaixo. Elas tinham desaparecido por trás de alguma outra elevação, mas isso não importava. O caminho estava claro. Como todas as larvas monstruosas que rastejavam pelas planícies do Tártaro, eles deviam seguir na direção do horizonte sombrio. Percy mal podia esperar.
Capítulo XIV - Percy
QUANDO COMEÇARAM A DESCER O penhasco, Percy se concentrou nos desafios mais imediatos: não perder o equilíbrio, evitar derrubar pedras para não alertar as empousai de sua presença e, é claro, garantir que ele e Annabeth não despencassem para a morte.
Na metade da descida, Annabeth disse:
— Percy, espere. Vamos parar um pouco.
As pernas dela tremiam tanto que Percy se xingou mentalmente por não ter sugerido uma parada antes.
Eles se sentaram juntos em uma saliência ao lado de uma feroz cascata de fogo. Percy passou o braço em torno de Annabeth, que se aconchegou a ele, trêmula de exaustão.
Ele não estava muito melhor. Seu estômago parecia ter encolhido até ficar do tamanho de uma bala de goma. Caso se deparassem com mais alguma carcaça de monstro, temia empurrar uma empousa para fora de seu caminho e tentar devorá-la.
Pelo menos ele tinha Annabeth. Iam encontrar uma saída do Tártaro. Tinham que conseguir. Não acreditava muito em destino e profecias, mas estava convencido de uma coisa: Annabeth e ele precisavam ficar juntos. Não haviam sobrevivido a tanta coisa só para morrerem ali.
— Podia ser pior — arriscou a garota.
— É? — Percy não via como, mas tentou parecer animado.
Ela se aninhou nele. Seus cabelos cheiravam a fumaça, e se fechasse os olhos, Percy quase podia imaginar que estavam junto da fogueira no Acampamento Meio-Sangue.
— Podíamos ter caído no Rio Lete — disse ela. — E perdido nossas lembranças.
Percy sentiu arrepios só de pensar nisso. Já tivera problemas suficientes com amnésia para uma vida inteira. Menos de um mês antes, Hera tinha apagado suas lembranças para botá-lo entre os semideuses romanos. Percy tinha ido parar no Acampamento Júpiter sem saber quem era ou de onde vinha. E alguns anos antes, lutara contra um titã nas margens do Lete, perto do palácio de Hades. Ele atacara o titã com água daquele rio e apagara sua memória.
— É, o Lete — murmurou ele. — Não é meu preferido.
— Qual era mesmo o nome daquele titã? — perguntou Annabeth.
— Hã... Jápeto. Ele disse que significava o Empalador ou algo assim.
— Não, o nome que você lhe deu depois que ele perdeu a memória. Steve?
— Bob — corrigiu Percy.
Annabeth conseguiu dar uma leve risada.
— Bob, o titã.
Os lábios de Percy estavam tão rachados que sorrir doía. Ele se perguntou o que teria acontecido com Jápeto depois que o deixaram no palácio de Hades... se ele ainda estaria feliz em ser Bob, simpático, alegre e bobalhão. Percy esperava que sim, mas o Mundo Inferior parecia despertar o pior em todos: monstros, heróis e deuses.
Observou as planícies cinzentas. Os outros titãs deveriam estar ali no Tártaro, talvez acorrentados ou vagando sem rumo, ou quem sabe escondidos em alguma daquelas fendas escuras. Percy e seus aliados tinham destruído o pior titã, Cronos, mas seus restos mortais podiam ainda estar ali, em algum lugar, um bilhão de partículas raivosas de titã flutuando nas nuvens cor de sangue ou espreitando na neblina negra.
Percy resolveu não pensar mais naquilo e beijou a testa de Annabeth.
— Temos que ir andando. Quer beber mais fogo?
— Eca. Não, obrigada.
Levantaram-se com dificuldade. Parecia impossível descer o resto do penhasco. Tudo que tinham pela frente eram saliências minúsculas, mas Percy e Annabeth seguiram em frente.
O corpo de Percy estava no piloto automático. Sentia câimbras nos dedos. Bolhas começavam a surgir em seus tornozelos. Estava tremendo de fome.
Perguntou-se se iriam morrer de inanição ou se o fogo líquido os manteria vivos. Lembrou-se do castigo de Tântalo, preso para sempre em um lago sob uma árvore frutífera, mas sem poder alcançar nem a água nem o alimento.
Caramba, Percy não pensava em Tântalo havia anos. Aquele sujeito idiota tinha sido brevemente perdoado para ser diretor do Acampamento Meio-Sangue. Provavelmente estava de volta aos Campos de Punição. Percy nunca tinha sentido pena do imbecil antes, mas agora sentia certa compaixão por ele. Podia imaginar como seria sentir cada vez mais fome por toda a eternidade sem jamais conseguir comer.
Continue a descer, disse a si mesmo.
Cheeseburgers, respondeu seu estômago.
Cale a boca, pensou.
Com fritas, protestou o estômago.
Um bilhão de anos mais tarde, com mais umas dez bolhas nos pés, Percy chegou ao fundo. Ajudou Annabeth a descer, e os dois desabaram no chão.
Diante deles se estendiam quilômetros de terra estéril fervilhando com larvas monstruosas e árvores que pareciam pelos gigantescos de inseto. À direita, o Flegetonte se dividia em braços que riscavam a planície, abrindo-se em um delta de fumaça e fogo. Ao norte, ao longo do curso principal do rio, havia inúmeras entradas de cavernas. Aqui e ali, colunas de rocha se projetavam para o alto como pontos de exclamação.
Ao tocar o solo, Percy o achou estranhamente quente e macio. Tentou pegar um punhado de terra, mas então percebeu que sob uma fina camada de terra e caliça, o chão era uma única grande membrana... que parecia pele.
Quase vomitou, mas conseguiu se conter. Não havia nada em seu estômago além de fogo. Não disse nada a Annabeth, mas começou a sentir que algo os observava, algo grande e maligno. Não conseguia dizer exatamente de onde, porque a presença estava ao seu redor.
Observar também era a palavra errada. Isso pressupunha olhos, e esta coisa apenas sabia que estavam ali. A sequência de penhascos diante deles começava a se parecer menos com degraus e mais com fileiras de dentes enormes. As colunas de pedra pareciam costelas quebradas. E se o solo fosse pele...
Percy se obrigou a pensar em outra coisa. Estava morrendo de medo daquele lugar. Era simples assim.
Annabeth se levantou, limpou a fuligem do rosto e olhou para a escuridão do horizonte.
— Vamos ficar completamente expostos quando atravessarmos essa planície.
Cerca de cem metros à frente deles, uma bolha estourou no chão. Um monstro saiu, abrindo caminho com suas garras... Um telquine com pele lisa, corpo como o de uma foca e membros humanos atrofiados. Conseguiu rastejar apenas alguns metros quando algo saiu disparado da caverna mais próxima, tão rápido que Percy só conseguiu vislumbrar uma cabeça reptiliana verde-escura. O monstro abocanhou o telquine e o arrastou para a escuridão, enquanto a presa guinchava.
Renascer no Tártaro só para ser devorado dois segundos depois. Percy se perguntou se aquele telquine surgiria em algum outro lugar do Tártaro e quanto tempo levaria para que seu corpo tornasse a se formar.
Engoliu em seco, ainda sentindo o sabor amargo do fogo líquido.
— Que a diversão comece.
Annabeth o ajudou a se levantar. Ele olhou para os penhascos uma última vez, mas não havia volta. Teria dado mil dracmas de ouro para que Frank Zhang estivesse com eles naquele momento, o bom e velho Frank, que sempre aparecia quando era necessário e podia se transformar em uma águia ou dragão e carregá-los voando por cima daquela terra idiota, estéril e desolada.
Começaram a andar, evitando as entradas das cavernas e permanecendo perto da margem do rio.
Estavam acabando de contornar uma das colunas quando os olhos de Percy captaram um vislumbre de movimento, algo correndo entre duas rochas à direita deles.
Estavam sendo seguidos por um monstro? Ou talvez fosse algum vilão aleatório a caminho das Portas da Morte.
De repente, ele se lembrou por que enveredaram por aquele caminho e parou de andar.
— As empousai — agarrou o braço de Annabeth — onde elas estão?
Annabeth olhou em volta. Seus olhos cinza reluziram alarmados.
Talvez as empousai tivessem sido apanhadas por aquele réptil na caverna. Se ainda estivessem à frente deles nas planícies, deveriam estar visíveis.
A menos que estivessem escondidas...
Percy sacou a espada tarde demais.
As empousai surgiram das rochas em volta deles, e as cinco formaram um círculo. Uma armadilha perfeita.
Kelli se adiantou mancando com aquelas suas pernas diferentes. Seus cabelos flamejantes caíam em cascata sobre os ombros como a miniatura de uma cachoeira do Flegetonte. O uniforme esfarrapado de líder de torcida estava coberto de manchas de um marrom acobreado, e Percy tinha quase certeza de que não eram de ketchup. Ela o encarou com os olhos vermelhos brilhantes e exibiu as presas.
— Percy Jackson — exclamou ela alegremente — que maravilha! Nem preciso voltar ao mundo mortal para destruir você!
Capítulo XV - Percy
PERCY SE LEMBROU DO PERIGO que Kelli representara da última vez que haviam lutado no Labirinto. Apesar das pernas diferentes, ela se movia muito rápido quando queria. Tinha desviado de seus golpes de espada e teria acabado com ele se Annabeth não a houvesse esfaqueado pelas costas.
Agora ela estava acompanhada de quatro amigas.
— E sua amiga Annabeth está com você! — sibilou Kelli com uma risada. — Ah, sim, eu me lembro muito bem dela.
Kelli tocou o próprio esterno, por onde saíra a ponta da lâmina quando Annabeth a esfaqueara.
— Qual é o problema, filha de Atena? Perdeu sua arma? Que chato. Eu gostaria de usá-la para matar você.
Percy tentou raciocinar. Ele e Annabeth ficaram ombro a ombro como haviam feito muitas vezes antes, prontos para a batalha. Mas nenhum dos dois estava em condições de lutar. Annabeth estava de mãos vazias. Estavam em grande desvantagem numérica. Não havia para onde correr. Não chegaria nenhuma ajuda.
Por um segundo, Percy considerou chamar a sra. O’Leary, sua amiga cão infernal que podia viajar pelas sombras. Mesmo que ela o ouvisse, será que conseguiria chegar ao Tártaro? Era para lá que os monstros iam quando morriam. Chamá-la até ali podia matá-la, ou fazê-la voltar a seu estado natural de monstro feroz. Não, não ia conseguir fazer isso com sua cadela.
Então, nada de ajuda. E não tinham chances no combate corpo a corpo.
Com isso, restavam as táticas favoritas de Annabeth: trapaça, conversa, postergação.
— Então... — Começou ele. — Acho que deve estar se perguntando o que estamos fazendo no Tártaro.
Kelli deu uma risadinha de desdém.
— Na verdade, não. Só quero matar você.
A conversa teria terminado aí, mas Annabeth entrou no papo.
— Que chato — disse ela — porque vocês não fazem ideia do que está acontecendo no mundo mortal.
As outras empousai começaram a andar em volta deles, observando Kelli à espera de uma deixa para atacar; mas a ex-líder de torcida só rosnou e saiu do alcance da espada de Percy.
— Sabemos o bastante — disse Kelli. — Gaia falou.
— Vocês estão rumando para uma grande derrota — Annabeth parecia tão confiante que até Percy se impressionou. Ela olhou para as outras empousai, uma por uma, depois apontou acusadoramente para Kelli — essa aí diz que as está conduzindo a uma vitória. É mentira. Da última vez em que esteve no mundo mortal, Kelli era responsável por manter meu amigo Luke Castellan fiel a Cronos. No fim, Luke o rejeitou e deu a vida para expulsá-lo. Os titãs perderam porque Kelli falhou. Agora ela quer conduzir vocês a um novo fracasso.
As outras empousai murmuravam e se moviam inquietas em seus lugares.
— Já chega! — As unhas de Kelli cresceram e se transformaram em longas garras negras.
Ela olhou para Annabeth como se estivesse fazendo picadinho dela mentalmente. Percy estava quase certo de que Kelli tivera uma queda por Luke Castellan. Luke tinha esse efeito sobre as garotas, mesmo nas vampiras com perna de burro, e Percy desconfiava de que mencionar seu nome não fora uma ideia muito boa.
— A garota está mentindo — disse Kelli — sim, os titãs perderam. Ótimo! Isso era parte do plano para despertar Gaia! Agora a Mãe Terra e seus gigantes vão destruir o mundo mortal, e a gente vai devorar um super banquete de semideuses!
As outras vampiras mostraram os dentes em um frenesi. Percy estivera no meio de um cardume de tubarões em uma água cheia de sangue. Mas aquilo não fora nem de perto tão assustador quanto empousai prontas para se alimentarem.
Ele se preparou para atacar, mas de quantas daria cabo antes que elas o dominassem? Não seria o suficiente.
— Os semideuses se uniram! — gritou Annabeth. — É melhor pensar duas vezes antes de nos atacar. Romanos e gregos vão combatê-los juntos. Vocês não têm a menor chance!
As empousai recuaram nervosamente, sibilando: “Romani.”
Percy pressupôs que elas haviam tido alguma experiência anterior com a Décima Segunda Legião e o resultado não fora nada bom para as empousai.
— É, isso mesmo, Romani — Percy desnudou o antebraço e mostrou a elas a marca que recebera no Acampamento Júpiter, as letras SPQR, com o tridente de Netuno — você sabe o que acontece quando mistura gregos e romanos? O resultado é um BUM!
Ele bateu o pé com força no chão, e as empousai se afastaram correndo. Uma caiu da rocha sobre a qual estivera parada. Isso fez com que Percy se sentisse bem, mas elas logo se recuperaram e voltaram a cercá-los.
— Vocês estão bem confiantes para dois semideuses perdidos no Tártaro — provocou Kelli — baixe a espada, Percy Jackson, e mato você rápido. Acredite em mim, há maneiras piores de morrer aqui embaixo.
— Espere! — tentou Annabeth outra vez. — As empousai não são servas de Hécate?
Kelli pareceu contrariada.
— E daí?
— E daí que Hécate agora está do nosso lado — disse Annabeth. — Ela tem um chalé no Acampamento Meio-Sangue. Alguns de seus filhos semideuses são meus amigos. Se lutarem contra nós, vão deixá-la com raiva.
Percy teve vontade de abraçar Annabeth. Ela era absolutamente brilhante.
Uma das outras empousai rosnou.
— Isso é verdade, Kelli? Nossa senhora fez as pazes com o Olimpo?
— Cale a boca, Serefone! — gritou Kelli. — Deuses, vocês são insuportáveis.
— Não vou contrariar a Senhora das Trevas.
Annabeth aproveitou a deixa.
— É melhor vocês todas ouvirem Serefone. Ela é mais velha e mais sábia.
— É! — gritou Serefone com sua voz aguda. — Sigam-me!
Kelli deu o bote tão rápido que Percy não teve chance de levantar a espada. Por sorte, ela não o atacou. Avançou sobre Serefone. Por meio segundo as duas empousai viraram um borrão de garras e presas afiadas.
Então acabou. Kelli ficou de pé triunfante sobre um monte de poeira. Os restos esfarrapados do vestido de Serefone pendiam de suas garras.
— Alguém tem mais algum problema? — perguntou Kelli ameaçadoramente para as irmãs. — Hécate é a deusa da Névoa! Seus desígnios são misteriosos. Quem sabe de que lado ela realmente está? Também é a deusa das encruzilhadas e espera que façamos nossas próprias escolhas. Eu escolho o caminho que vai nos render mais sangue de semideuses! Escolho Gaia.
Suas amigas sibilaram em aprovação.
Annabeth olhou rapidamente para Percy, e ele viu que ela estava sem ideias. Ela havia feito o possível. Conseguira que Kelli eliminasse uma delas mesmas. Agora não havia mais nada a fazer além de lutar.
— Por dois anos eu me debati no vazio — disse Kelli. — Você tem ideia de como é absolutamente chato ser vaporizada, Annabeth Chase? Tipo, recuperar a forma bem devagar, estando totalmente consciente e sofrendo uma dor terrível por meses e anos enquanto seu corpo torna a crescer, para então finalmente romper a crosta deste lugar infernal e se arrastar com as garras de volta à luz do dia? Tudo porque uma garotinha a esfaqueou pelas costas?
Seus olhos ameaçadores encararam os de Annabeth.
— O que será que acontece se um semideus for morto no Tártaro? Duvido que já tenha acontecido antes. Vamos descobrir.
Percy atacou, brandindo Contracorrente em um arco amplo. Cortou um dos demônios ao meio, mas Kelli se esquivou e atacou Annabeth. As outras duas empousai se lançaram sobre Percy. Uma agarrou o braço da espada. A amiga pulou nas costas dele. Percy tentou ignorá-las e avançou com dificuldade na direção de Annabeth, determinado a morrer defendendo-a, se fosse preciso. Mas Annabeth estava se saindo muito bem. Ela desviou para um lado e escapou das garras de Kelli. Quando se levantou, trazia uma pedra na mão, com a qual golpeou o nariz da adversária.
Kelli urrou. Annabeth pegou um punhado de cascalho e o jogou nos olhos da empousa. Enquanto isso, Percy se debatia, tentando se livrar da empousa que pegara carona nas suas costas, mas as garras dela afundaram ainda mais em seus ombros. A segunda empousa segurava seu braço, evitando que ele usasse Contracorrente.
Pelo canto do olho, viu Kelli saltar e cravar as garras nos braços de Annabeth, que gritou e caiu. Percy cambaleou em sua direção. A vampira em suas costas afundou os dentes em seu pescoço. Uma dor intensa percorreu todo o seu corpo, e seus joelhos vacilaram.
Fique de pé, disse para si mesmo. Você tem de vencê-las.
Então a outra vampira mordeu o braço da espada, e Contracorrente caiu no chão com um ruído metálico.
Era isso. Sua sorte finalmente acabara. Kelli erguia-se sobre Annabeth, saboreando sua vitória. As outras duas empousai cercaram Percy com as bocas salivando, prontas para outra mordida. Então uma sombra passou por Percy. De algum lugar acima, ouviu-se um sonoro grito de guerra, que ecoou pelas planícies do Tártaro, e em seguida um titã caiu no campo de batalha.
Capítulo XVI - Percy
PERCY ACHOU QUE ESTAVA ALUCINANDO. Não era possível que uma figura prateada enorme caísse do nada bem em cima de Kelli e a transformasse em poeira de monstro.
Mas foi exatamente o que aconteceu. O titã tinha três metros de altura, cabelos prateados e desgrenhados como os de Einstein, olhos inteiramente prateados e braços musculosos saindo do uniforme rasgado de zelador. Ele carregava uma enorme vassoura, e seu crachá, para espanto de Percy, dizia: BOB.
Annabeth gritou de dor e tentou se afastar, rastejando, mas o zelador gigante não estava interessado nela. Ele se virou para as empousai que ainda estavam em cima de Percy.
Uma foi tola o suficiente para atacar. Ela se lançou com a velocidade de um tigre, mas não teve a menor chance. Uma ponta de lança projetou-se da extremidade da vassoura de Bob. Com um único golpe mortal, ele a cortou e a transformou em poeira. A última empousa tentou fugir.
Bob lançou a vassoura como se fosse um bumerangue gigante (será que existia algo como um vassourangue?), que atravessou a empousa e voltou para suas mãos.
— VARRER! — O titã sorriu com prazer e fez uma dança da vitória. — Varrer, varrer, varrer!
Percy não conseguia falar. Para ele, era impossível acreditar que alguma coisa boa tinha mesmo acontecido. Annabeth parecia igualmente chocada.
— C-como...? — gaguejou ela.
— Percy me chamou! — disse o zelador, satisfeito. — É, ele chamou.
Annabeth se afastou um pouco mais. Seu braço estava sangrando muito.
— Chamou você? Ele... espere. Você é Bob? O Bob?
O zelador fez uma expressão preocupada ao ver o ferimento de Annabeth.
— Ai!
Annabeth se encolheu quando ele se ajoelhou a seu lado.
— Está tudo bem — disse Percy, ainda zonzo de dor. — Ele é um amigo.
Ele se lembrou de quando conheceu Bob. O titã tinha curado uma ferida feia no ombro de Percy só de tocá-la. Exatamente o que aconteceu agora: o zelador deu um tapinha no braço de Annabeth, que cicatrizou na mesma hora.
Bob riu, feliz consigo mesmo, depois foi até Percy e curou o pescoço e o braço que sangravam. As mãos do titã eram surpreendentemente quentes e delicadas.
— Agora está tudo bem! — declarou Bob, com os estranhos olhos prateados brilhando de prazer. — Eu sou Bob, amigo de Percy.
— Ah... sim. — Foi o que Percy conseguiu dizer. — Obrigado pela ajuda, Bob. É muito bom ver você de novo.
— É mesmo — concordou o zelador. — Bob. Esse sou eu. Bob, Bob, Bob. — Ele não parava quieto, obviamente feliz com o nome. — Estou ajudando. Ouvi meu nome. Lá em cima no palácio de Hades, ninguém chama Bob a não ser que haja uma sujeirada. Bob, varra esses ossos. Bob, limpe essas almas torturadas. Bob, um zumbi explodiu na sala de jantar.
Annabeth olhou intrigada para Percy, mas ele não tinha explicação.
— Então ouvi meu amigo chamar! — disse orgulhoso o titã. — Percy disse: Bob!
Ele segurou o braço de Percy e o levantou.
— Isso é incrível — disse Percy. — É sério. Mas como você...
— Ah, mais tarde teremos tempo para conversar. — A expressão de Bob ficou séria. — Precisamos ir antes que encontrem vocês. Eles estão a caminho. Estão, sim.
— Eles? — perguntou Annabeth.
Percy observou o horizonte. Não viu monstros se aproximando. Não havia nada além da terra estéril cinzenta e desolada.
— É — confirmou Bob. — Mas Bob conhece um caminho. Venham, amigos! Vamos nos divertir!
Capítulo XVII - Frank
FRANK ACORDOU COMO UMA PÍTON, o que o deixou confuso.
Não por estar em uma forma animal. Ele fazia isso o tempo todo. Mas nunca se transformara durante o sono. Tinha certeza de que não adormecera como cobra. Normalmente, dormia como cão.
Descobrira que dormia muito melhor na forma de um buldogue encolhido em seu beliche. Por algum motivo, tinha menos pesadelos. A constante gritaria em sua cabeça quase desaparecia.
Ele não fazia ideia de por que se transformara em uma píton reticulada, mas isso explicava o sonho no qual engolia lentamente uma vaca. Sua mandíbula ainda estava dolorida.
Preparou-se e voltou à forma humana. Imediatamente, a terrível dor de cabeça retornou, junto com as vozes.
Lute contra eles!, gritou Marte. Tome o navio! Defenda Roma!
A voz de Ares gritou em resposta: Mate os romanos! Sangue e morte! Armas gigantescas!
As personalidades romana e grega de seu pai gritavam em sua mente com a habitual trilha sonora de ruídos de batalha: explosões, rifles de assalto, turbinas rugindo – tudo pulsando como se houvesse um amplificador de som no cérebro de Frank.
Ele se sentou no beliche, zonzo de tanta dor. Como fazia todas as manhãs, inspirou profundamente e olhou para o lampião sobre a escrivaninha – uma pequena chama que queimava noite e dia, alimentada pelo azeite de oliva mágico da despensa.
Fogo... o maior medo de Frank. Manter uma chama acesa em seu quarto o aterrorizava, mas também o ajudava a se concentrar. O barulho em sua cabeça tornava-se apenas um ruído de fundo, e assim ele conseguia pensar.
Ele melhorara, mas durante dias fora quase um inútil. Assim que a luta irrompera no Acampamento Júpiter, as duas vozes do deus da guerra haviam começado a berrar sem parar. Desde então, Frank andava por aí confuso, quase incapaz de agir. Vinha se comportando como um idiota, e tinha certeza de que seus amigos achavam que ele tinha perdido o juízo.
Frank não podia lhes dizer o que havia de errado. Eles não podiam fazer nada, e, ouvindo as suas conversas, Frank confirmou que não estavam com o mesmo problema de ter seus divinos pais gritando em seus ouvidos.
Típico de Frank, mas ele tinha de se recompor. Seus amigos precisavam dele, especialmente agora, com a ausência de Annabeth.
Annabeth fora gentil com Frank. Mesmo quando ele estava perturbado e fazendo várias trapalhadas, ela fora paciente e prestativa. Enquanto Ares gritava que os filhos de Atena não eram confiáveis, e Marte ordenava aos berros que ele matasse todos os gregos, Frank passara a respeitar Annabeth.
Agora que estavam sem ela, Frank era a melhor opção do grupo em termos de estrategista militar. Precisariam dele na jornada que tinham pela frente.
Ele se levantou e se vestiu. Felizmente, conseguira comprar roupas novas em Siena dois dias antes, substituindo a roupa suja que Leo usara como isca na mesa Buford. (Longa história). Ele pegou um jeans, uma camiseta verde do exército e separou seu pulôver favorito, mas lembrou que não precisava daquilo. Fazia muito calor. Mais importante: não precisava mais de bolsos para proteger o pedaço de madeira mágica que controlava o seu tempo de vida. Hazel o mantinha em segurança para ele.
Talvez isso devesse deixá-lo nervoso. Se o graveto queimasse, Frank morreria: fim da história. Mas confiava em Hazel mais do que em si mesmo. Saber que ela protegia a sua maior fraqueza o fazia se sentir melhor, como se tivesse colocado o cinto de segurança antes de uma perseguição em alta velocidade.
Ele pendurou no ombro o arco e a aljava, que imediatamente se transformaram em uma mochila comum. Frank adorava aquilo. Jamais teria descoberto a camuflagem de sua aljava sem Leo.
Leo!, rugiu Marte. Ele deve morrer!
Estrangule-o!, gritou Ares. Estrangule todo mundo! Espere, de quem estamos falando mesmo?
Os dois começaram a gritar um com o outro de novo, por cima do som das bombas que explodiam dentro da cabeça de Frank.
Ele se apoiou na parede. Durante dias, Frank ouvira aquelas vozes exigirem a morte de Leo Valdez.
Afinal, fora Leo quem começara a guerra com o Acampamento Júpiter ao disparar uma balista contra o Fórum. Claro, ele estava possuído naquele momento, mas Marte exigia vingança mesmo assim. E Leo piorava as coisas ao debochar sempre de Frank, e Ares exigia que Frank retaliasse cada insulto.
Frank mantinha as vozes sob controle, mas não era fácil.
Em sua viagem pelo Atlântico, Leo dissera algo que não lhe saía da cabeça. Quando descobriram que Gaia, a malvada deusa da terra, pusera todos eles a prêmio, Leo desejou saber o valor.
Quer dizer, posso entender por que não sou tão caro quanto Percy ou Jason, talvez..., dissera, mas valho, tipo, dois ou três Franks.
Era apenas mais uma das piadas idiotas de Leo, mas ele havia colocado o dedo na ferida. No Argo II, Frank definitivamente se sentia como o JMV, ou Jogador Menos Valioso. Claro, ele podia se transformar em animais. Mas e daí? Sua maior utilidade até agora fora virar uma doninha para escapar de uma oficina subterrânea, e até mesmo isso fora ideia de Leo. Frank era mais conhecido pelo Fiasco do Peixe Dourado Gigante, em Atlanta, e também por ontem, após ter se transformado em um gorila de duzentos quilos apenas para ser derrubado por uma granada de som e luz.
Leo ainda não fizera nenhuma piada sobre gorilas às suas custas, mas era apenas uma questão de tempo.
Mate-o!
Torture-o! Depois mate!
Os dois lados do deus da guerra pareciam estar brigando dentro da cabeça de Frank, usando seu cérebro como ringue.
Sangue! Armas!
Roma! Guerra!
Fiquem quietos, ordenou Frank.
Surpreendentemente, as vozes obedeceram.
Muito bem, pensou Frank.
Talvez pudesse finalmente controlar aqueles irritantes minideuses. Talvez hoje fosse um bom dia.
Mas a esperança foi destruída assim que subiu ao convés superior.
* * *
— O que são esses bichos? — perguntou Hazel.
O Argo II estava atracado a um cais muito movimentado. De um lado estendia-se um canal de navegação com cerca de meio quilômetro de largura. Do outro, a cidade de Veneza: telhados vermelhos, cúpulas metálicas nas igrejas, torres com campanários e edifícios banhados pelo sol, pintados em todas as cores daqueles doces em forma de coração típicos do Dia dos Namorados: vermelho, branco, ocre, rosa e laranja.
Por toda parte havia estátuas de leões: sobre pedestais, em cima das portas de entrada, nos pórticos dos edifícios maiores. Havia tantos que Frank concluiu que o leão devia ser o mascote da cidade.
Em lugar de ruas, canais verdes tomados por lanchas cortavam os bairros. Ao longo das docas, as calçadas estavam abarrotadas de turistas fazendo compras nos quiosques de camisetas, lotando as lojas e relaxando ao longo dos quilômetros de mesas de cafés ao ar livre, como um bando de leões-marinhos. E Frank tinha achado que Roma era cheia de turistas... Veneza era uma loucura.
Mas Hazel e o restante de seus amigos não estavam prestando atenção em nada disso. Reuniam-se à amurada a boreste olhando para dezenas de estranhos monstros peludos misturados à multidão.
Cada monstro era mais ou menos do tamanho de uma vaca, com as costas curvadas como as de um cavalo exaurido, pelo cinzento emaranhado, patas finas e cascos negros fendidos. A cabeça das criaturas parecia pesada demais para o pescoço. Os longos focinhos de tamanduá chegavam quase até o chão. As longas jubas acinzentadas cobriam completamente seus olhos.
Frank observou uma das criaturas vagar pesadamente pelo passeio, farejando e lambendo o chão com a língua comprida. Os turistas passavam ao seu lado sem esboçarem surpresa. Alguns chegavam até mesmo a acariciá-lo. Frank se perguntou como aqueles mortais podiam estar tão calmos. Então, a figura do monstro tremeluziu. Por um instante, sua aparência era a de um velho e gordo beagle.
— Os mortais pensam que são cães de rua — resmungou Jason.
— Ou animais de estimação perambulando por aí — disse Piper. — Meu pai fez um filme em Veneza certa vez. Eu me lembro de ele ter dito que havia cachorros em todo lugar. Os venezianos adoram cães.
Frank franziu a testa. Sempre se esquecia de que o pai de Piper era Tristan McLean, um grande astro do cinema. Ela não falava muito sobre ele. Piper era uma garota muito equilibrada para alguém que havia crescido em Hollywood. Frank achava isso ótimo. A última coisa de que precisavam naquela missão era de paparazzi tirando fotos de todos os seus fracassos épicos.
— Mas o que são esses bichos? — Ele repetiu a pergunta de Hazel. — Parecem... vacas desnutridas com pelo de pastor inglês.
Esperou que alguém lhe desse alguma explicação. Ninguém disse nada.
— Talvez sejam inofensivos — sugeriu Leo. — Estão ignorando os mortais.
— Inofensivos — debochou Gleeson Hedge.
O sátiro trajava seu short de ginástica de sempre, camiseta esporte e apito de treinador. Parecia mal-humorado, como de costume, mas ainda tinha um elástico cor-de-rosa no cabelo, preso pelos anões ardilosos em Bolonha. Frank estava com medo de avisá-lo.
— Valdez, quantos monstros inofensivos já encontramos? A gente devia apontar essas balistas e botar para quebrar!
— Hã, não — disse Leo.
Pela primeira vez, Frank concordou com Leo. Havia muitos monstros. Seria impossível atingir um sem acertar também a multidão de turistas. Além disso, se aquelas criaturas entrassem em pânico e desatassem a correr...
— Teremos de passar por eles e torcer para que sejam pacíficos — disse Frank, já odiando a ideia — é a única maneira de encontrarmos o dono do livro.
Leo tirou o manual encadernado em couro de debaixo do braço. Ele colara uma nota adesiva na capa com o endereço que os anões lhe deram em Bolonha.
— La Casa Nera — leu. — Calle Frezzeria.
— A Casa Negra — traduziu Nico di Angelo. — Calle Frezzeria é a rua.
Frank tentou não recuar ao perceber que Nico estava ao seu lado. O sujeito era tão quieto e sombrio que parecia desaparecer quando não estava falando. Hazel podia ter voltado dos mortos, mas Nico era muito mais fantasmagórico.
— Você fala italiano? — perguntou Frank.
Nico lançou-lhe um olhar de advertência, tipo: Cuidado com o que pergunta. Mas respondeu calmamente:
— Frank está certo. Precisamos encontrar esse endereço. E a única maneira de fazer isso é andando pela cidade. Veneza é um labirinto. Teremos que enfrentar as multidões e esses... seja lá o que forem.
Um trovão retumbou no céu claro de verão. Eles tinham enfrentado tempestades na noite anterior. Frank achara que haviam terminado, mas agora não tinha certeza. O ar estava tão quente e abafado quanto o de uma sauna a vapor.
Jason franziu a testa ao fitar o horizonte.
— Talvez eu devesse ficar a bordo. Tinha muitos venti na tempestade de ontem à noite. Se decidirem atacar o navio outra vez...
Não precisou terminar. Todos haviam sentido a fúria dos espíritos do vento. Jason fora o único que tivera alguma chance de combatê-los.
O treinador Hedge resmungou:
— Bem, estou fora também. Se vocês, bebezinhos de coração mole, vão passear por Veneza sem nem mesmo dar uns tabefes na cabeça desses animais peludos, não quero nem saber. Não gosto de expedições tediosas.
— Tudo bem, treinador — disse Leo, sorrindo. — Ainda temos que consertar o mastro de proa. Então, precisarei de sua ajuda na sala de máquinas. Tenho uma ideia para uma nova instalação.
Frank não gostou do brilho nos olhos de Leo. Desde que o filho de Hefesto encontrara a esfera de Arquimedes, vinha planejando um monte de “novas instalações”. Normalmente elas explodiam ou produziam fumaça, que subia até a cabine de Frank.
— Bem — Piper mudou o peso do corpo de um pé para o outro. — Quem quer que vá deve saber lidar com animais. Eu, bem... admito não ser muito boa com vacas.
Frank percebeu que havia uma história por trás daquele comentário, mas resolveu não perguntar.
— Eu vou — disse ele.
Não sabia dizer por que se oferecera, talvez por estar ansioso para ser útil para variar. Ou talvez por não querer que se adiantassem dizendo: Animais? Frank pode se transformar em animais! Ele é que deve ir!
Leo deu um tapinha no ombro dele e entregou-lhe o livro com capa de couro.
— Ótimo. Se você passar por alguma loja de ferragens, pode me trazer algumas tábuas 2x4 e um galão de alcatrão?
— Leo — censurou Hazel. — Ele não está indo fazer compras.
— Eu vou com Frank — ofereceu-se Nico.
Os olhos de Frank começaram a tremer. As vozes dos deuses da guerra ficaram mais altas dentro de sua cabeça: Mate-o! Escória grega!
Não! Eu amo a escória grega!
— Hã... você é bom com animais? — perguntou.
Nico forçou um sorriso.
— Na verdade, a maioria dos animais me odeia. Eles podem sentir a morte. Mas há algo nesta cidade... — Sua expressão se tornou sombria. — Muitas mortes. Espíritos inquietos. Se eu for, talvez consiga mantê-los afastados. Além disso, como você notou, eu falo italiano.
Leo coçou a cabeça.
— Muitas mortes, hein? Pessoalmente, estou tentando evitar muitas mortes. Mas divirtam-se!
Frank não sabia o que o assustava mais: as monstruosas vacas peludas, as hordas de fantasmas inquietos ou ir a algum lugar sozinho com Nico di Angelo.
— Também vou — Hazel tomou o braço de Frank — três é o melhor número para uma missão de semideuses, certo?
Frank tentou não parecer muito aliviado. Ele não queria ofender Nico. Mas se voltou para Hazel e agradeceu com os olhos: Obrigado, obrigado, obrigado.
Nico fitou os canais, como se estivesse se perguntando quais novos e interessantes tipos de maus espíritos poderiam estar espreitando por lá.
— Tudo bem, então. Vamos encontrar o dono deste livro.
Capítulo XVIII - Frank
FRANK TERIA GOSTADO DE VENEZA se não fosse verão, no meio da alta temporada, e se a cidade não estivesse tomada por enormes criaturas peludas. Espremidas entre as fileiras de casas antigas e os canais, as calçadas já eram estreitas demais para a multidão que se acotovelava e parava para tirar fotos. Os monstros deixavam tudo ainda pior. Vagavam de cabeça baixa, esbarrando nos mortais e farejando o chão.
Um pareceu ter encontrado algo de seu agrado à margem de um canal. Mordiscou e lambeu uma rachadura entre as pedras até conseguir remover uma espécie de raiz esverdeada. O monstro a consumiu alegremente e se afastou.
— Bem, eles são vegetarianos — disse Frank. — Essa é uma boa notícia.
Hazel segurou sua mão.
— A menos que complementem a sua dieta com semideuses. Tomara que não.
Frank ficou tão feliz por estar de mãos dadas com Hazel que as multidões, o calor e os monstros subitamente não lhe pareceram assim tão ruins. Sentia-se necessário. Útil.
Não que Hazel precisasse de sua proteção. Qualquer um que a tivesse visto montada em Arion, cavalgando em direção a um inimigo e brandindo a espada, saberia que ela podia cuidar de si mesma. Ainda assim, Frank gostava de estar ao seu lado, imaginando ser o seu guardacostas. Se qualquer um daqueles monstros tentasse feri-la, ele se transformaria em um rinoceronte com todo o prazer e o empurraria para dentro do canal.
Será que conseguiria se transformar em um rinoceronte? Frank nunca tentara.
Nico parou.
— Ali.
Entraram em uma rua menor, deixando o canal para trás. À frente deles havia uma pequena praça cercada por prédios de cinco andares. O lugar estava estranhamente deserto, como se os mortais sentissem que ali não era seguro. No meio do pátio com calçamento de seixos, umas doze vacas peludas farejavam um antigo poço de pedras cobertas de musgo.
— Um monte de vacas em um mesmo lugar — observou Frank.
— É, mas veja — disse Nico. — Atrás daquele arco.
Os olhos de Nico deviam ser melhores do que os dele. Frank forçou a vista. Na outra extremidade da praça, um arco de pedra entalhado com leões levava a uma rua estreita. Logo após o arco, uma das casas era preta; o único edifício dessa cor que Frank vira até então em Veneza.
— La Casa Nera? — arriscou ele.
Hazel segurou a mão de Frank com mais força.
— Eu não gosto desta praça. Está... fria.
Frank não tinha certeza do que Hazel queria dizer, já que ainda estava suando como um porco.
Mas Nico assentiu. Ele estudou as janelas da casa, a maioria fechada com venezianas de madeira.
— Tem razão, Hazel. Este lugar está cheio de lemures.
— Lêmures? — perguntou Frank, nervoso. — Suponho que você não esteja se referindo aos pequenos animais peludos de Madagascar.
— São fantasmas furiosos — esclareceu Nico. — Os lemures remontam ao tempo dos romanos. Eles perambulam por muitas das cidades italianas, mas nunca senti tantos em um mesmo lugar. Minha mãe dizia que... — Ele hesitou. — Ela me contava histórias sobre os fantasmas de Veneza.
Novamente, Frank ficou curioso sobre o passado de Nico, mas tinha medo de perguntar. Ele olhou para Hazel.
Ela parecia estar dizendo: Vá em frente. Nico precisa de mais prática em conversar com pessoas.
Os sons de rifles de assalto e bombas atômicas ficaram mais altos dentro da cabeça de Frank. Marte e Ares estavam tentando superar um ao outro com Dixie e O Hino de Batalha da República. Frank fez o possível para ignorá-los.
— Nico, sua mãe era italiana? — perguntou. — Era de Veneza?
Nico assentiu, relutante.
— Ela conheceu Hades aqui, na década de 1930. Com a Segunda Guerra Mundial prestes a estourar, fugiu para os EUA comigo e com minha irmã. Quer dizer... Bianca, minha outra irmã. Não me lembro muito da Itália, mas ainda sei falar o idioma.
Frank tentou pensar em uma resposta. Puxa, que legal não parecia apropriado. Ele estava perto não de um, mas de dois semideuses tirados de seu tempo. Tecnicamente, ambos eram uns setenta anos mais velhos do que ele.
— Deve ter sido difícil para a sua mãe — disse Frank. — Acho que fazemos qualquer coisa pelas pessoas que amamos.
Hazel apertou sua mão de modo aprovador. Nico olhou para os seixos do calçamento.
— É — disse com amargura. — Acho que fazemos.
Frank não sabia o que Nico estava pensando. Tinha dificuldade em imaginar Nico di Angelo fazendo algo por amor, exceto, talvez, por Hazel. Mas decidiu que já fizera muitas perguntas pessoais.
— Então, os lemures... — Ele engoliu em seco. — Como podemos evitá-los?
— Já estou cuidando disso — respondeu Nico. — Enviei uma mensagem dizendo que devem ficar longe e nos ignorar. Esperemos que seja o bastante. Caso contrário... as coisas podem ficar complicadas.
Hazel não parecia convencida.
— Vamos em frente — sugeriu ela.
Quando estavam no meio da praça, tudo deu errado. Mas não foi por causa dos fantasmas. Eles contornavam o poço no centro da praça, tentando manter certa distância dos monstros bovinos, quando Hazel tropeçou em um pedaço solto de calçamento. Frank a segurou. Seis ou sete daquelas enormes criaturas cinzentas voltaram-se para eles. Frank vislumbrou um olho verde brilhante sob uma juba e imediatamente foi tomado por uma onda de náusea, como a que sentia quando comia muito queijo ou sorvete.
As criaturas emitiram profundos sons guturais, como sirenes furiosas.
— Vacas boazinhas — murmurou Frank, tranquilizador. Ele se colocou entre seus amigos e os monstros. — Pessoal, acho que devemos sair daqui bem devagar.
— Eu sou uma estabanada — murmurou Hazel. — Me desculpem.
— Não é culpa sua — disse Nico. — Olhe para os seus pés.
Frank olhou para baixo e ofegou, surpreso.
Sob seus pés, as pedras do calçamento se moviam: gavinhas pontiagudas surgiam das rachaduras.
Nico recuou um passo. As raízes serpentearam em sua direção, tentando segui-lo. As gavinhas ficaram mais grossas, exalando um vapor verde que cheirava a repolho cozido.
— Essas raízes parecem gostar de semideuses — observou Frank.
A mão de Hazel segurou o punho da espada.
— E as vacas gostam das raízes.
Todo o rebanho olhava agora em sua direção, emitindo rosnados repetidos que lembravam sirenes e batendo os cascos no chão. Frank sabia o suficiente sobre comportamento animal para entender a mensagem: vocês estão pisando em nossa comida. Isso os torna nossos inimigos.
Frank tentou raciocinar. Havia monstros demais, não tinham como enfrentá-los. E algo nos olhos das criaturas, escondidos sob as jubas peludas... Frank ficara nauseado apenas com um olhar de relance. Tinha o mau pressentimento de que, caso aqueles monstros fizessem contato visual, pudessem deixá-lo muito mais do que nauseado.
— Não olhem para os olhos deles — advertiu — vou distraí-los. Vocês dois recuem bem devagar em direção à casa negra.
As criaturas se prepararam para atacar.
— Esqueçam o que eu disse — disse Frank. — Corram!
* * *
No fim das contas, Frank descobriu que não conseguia se transformar em rinoceronte e perdeu um tempo precioso tentando.
Nico e Hazel correram para a rua lateral. Frank se posicionou na frente dos monstros, na esperança de chamar a sua atenção. Ele berrou o mais alto que pôde, imaginando a si mesmo como um temível rinoceronte, mas com Ares e Marte gritando dentro de sua cabeça, não conseguia se concentrar. Continuou o Frank de sempre.
Dois dos monstros bovinos se destacaram do rebanho para perseguir Nico e Hazel.
— Não! — gritou Frank para as criaturas. — Aqui! Eu sou um rinoceronte!
O restante da manada o cercou. Os animais rosnavam, e um gás verde-esmeralda saía de suas narinas. O semideus recuou um passo para evitar o vapor, mas o fedor quase o fez desmaiar.
Muito bem, nada de rinoceronte. Outra coisa. Frank sabia que tinha apenas alguns segundos antes que os monstros o pisoteassem ou o envenenassem, mas não conseguia raciocinar. Não conseguia se concentrar na imagem de animal nenhum tempo o bastante para se transformar.
Então, olhou para uma das varandas das casas e viu uma escultura em pedra, o símbolo de Veneza.
No instante seguinte, Frank era um leão adulto. Soltou um rugido desafiador, então pulou para longe dos monstros que o cercavam e aterrissou a oito metros dali, em cima do antigo poço de pedra.
Os monstros rosnaram em resposta. Três deles fizeram sua investida ao mesmo tempo, mas Frank estava preparado. Seus reflexos de leão eram feitos para o combate ágil. Ele transformou os dois primeiros monstros em pó com suas garras, afundou as presas na garganta do terceiro e jogou-o para o lado.
Restavam sete, e mais os dois que perseguiam os seus amigos. As chances não eram boas, mas Frank precisava manter o rebanho concentrado nele. Rugiu para os monstros, que se afastaram.
Sim, eles estavam em vantagem numérica. Mas Frank era um predador top de linha. Os monstros do rebanho sabiam disso. Tinham acabado de assisti-lo mandar três de seus amigos para o Tártaro.
Ele se aproveitou da vantagem e saltou do poço, ainda mostrando as presas. O rebanho recuou.
Se pudesse simplesmente contornar o grupo correndo e ir atrás de seus amigos... Frank estava se saindo bem, até recuar um passo em direção ao arco. Uma das vacas, a mais corajosa ou mais estúpida, interpretou aquilo como um sinal de fraqueza. Ela avançou e soprou gás verde no rosto de Frank.
Ele transformou o monstro em pó com suas garras, mas o estrago já estava feito. Frank prendeu a respiração. Ainda assim, sentia os pelos do focinho queimando. Seus olhos ardiam. Cambaleou para trás, meio cego e tonto, vagamente consciente de Nico gritando o seu nome.
— Frank! Frank!
Ele tentou se concentrar. Estava de volta à forma humana, com ânsia de vômito e cambaleante. A pele do rosto parecia estar descascando. A nuvem de gás verde flutuava entre ele e o rebanho à sua frente. Os monstros bovinos restantes olhavam-no desconfiados, talvez se perguntando se Frank tinha algum outro truque na manga.
Ele olhou para trás. Sob o arco de pedra, Nico di Angelo empunhava a espada negra de ferro estígio, acenando para que Frank se apressasse. Aos pés de Nico, duas poças escuras manchavam a calçada – sem dúvida restos dos monstros bovinos que os perseguiram.
E Hazel... estava encostada na parede atrás do irmão. Ela não se movia.
Frank correu em sua direção, esquecendo-se do rebanho de monstros. Passou correndo por Nico e agarrou os ombros da garota. A cabeça de Hazel tombou na direção do peito.
— Ela levou uma baforada de gás verde no rosto — contou Nico, arrasado. — Eu... eu não fui rápido o bastante.
Frank não sabia dizer se ela estava respirando. Raiva e desespero lutavam dentro dele. Sempre tivera medo de Nico. Agora, queria dar uma voadora no filho de Hades e jogá-lo no canal mais próximo. Talvez não fosse justo, mas Frank não se importava. Tampouco os deuses da guerra que gritavam em sua cabeça.
— Precisamos levá-la de volta para o navio — disse Frank.
O rebanho de monstros bovinos rondava cautelosamente, um pouco além do arco, lançando os seus berros de sirene. Nas ruas em torno, outros monstros respondiam. Reforços. Logo os semideuses estariam cercados.
— Nunca conseguiremos voltar a pé — disse Nico. — Frank, transforme-se em uma águia gigante. Não se preocupe comigo. Leve-a de volta ao Argo II!
Com o rosto ardendo e as vozes gritando em sua mente, Frank não sabia se conseguiria mudar de forma, mas estava prestes a tentar quando uma voz atrás deles disse:
— Seus amigos não podem ajudá-los. Eles não conhecem a cura.
Frank se virou na direção da voz. À entrada da casa negra havia um homem jovem vestindo calça e camisa jeans. Tinha cabelos pretos encaracolados e um sorriso amigável, embora Frank duvidasse que ele fosse um amigo. Provavelmente nem era humano.
Naquele momento, Frank não se importava nem um pouco.
— Você pode curá-la?
— É claro — disse o homem. — Mas é melhor entrarem logo. Acho que vocês irritaram todos os catóblepas de Veneza.
Capítulo XIX - Frank
FOI POR POUCO QUE CONSEGUIRAM entrar. Assim que o anfitrião trancou o ferrolho, os monstros bovinos urraram e se atiraram contra a porta, fazendo-a estremecer em suas dobradiças.
— Ah, eles não podem entrar — assegurou o sujeito de jeans. — Vocês estão seguros agora!
— Seguros? — exclamou Frank. — Hazel está morrendo!
O estranho franziu a testa, como se não tivesse gostado de Frank ter estragado o seu bom humor.
— Sim, sim. Tragam-na por aqui.
Frank carregou Hazel seguindo o homem para o interior do prédio. Nico se ofereceu para ajudar, mas não era preciso. Hazel não pesava nada, e o corpo de Frank estava sob efeito da adrenalina. Ele sentia os tremores de Hazel, o que significava que ao menos ela estava viva, mas sua pele estava fria. Os lábios assumiram um tom esverdeado, ou seria apenas a visão embaçada de Frank?
Seus olhos ainda ardiam por causa do hálito do monstro. Seus pulmões queimavam como se ele tivesse inalado um repolho em chamas. Não sabia por que o gás o afetara menos do que a Hazel. Talvez ela tivesse respirado mais gás. Frank teria dado qualquer coisa para trocar de lugar com ela caso isso significasse salvar sua vida.
As vozes de Marte e Ares gritavam dentro de sua cabeça, incitando-o a matar Nico, o homem de jeans e qualquer um que encontrasse, mas Frank controlou o barulho que faziam.
O primeiro cômodo da casa era uma espécie de estufa. Ao longo das paredes havia mesas com bandejas de plantas sob lâmpadas fluorescentes. O ar cheirava a fertilizante. Será que os venezianos faziam seus jardins dentro de casa, já que estavam cercados de água em vez de terra?
Frank não tinha certeza, mas não perdeu muito tempo pensando no assunto.
A sala dos fundos parecia uma mistura de garagem, dormitório de faculdade e laboratório de informática. Junto à parede da esquerda ficava uma bancada de servidores e laptops, com protetores de tela que exibiam imagens de tratores e campos arados. Encostada na parede da direita havia uma cama de solteiro, uma mesa bagunçada e um guarda-roupa aberto repleto de mais jeans e uma pilha de instrumentos agrícolas, como forcados e ancinhos. A parede dos fundos era uma grande porta de garagem. Estacionada ali perto via-se uma carruagem aberta vermelha e dourada com um único eixo, como as carruagens em que Frank correra no Acampamento Júpiter. Das laterais do compartimento do condutor brotavam asas com penas gigantescas. Enrolada ao aro da roda esquerda, uma píton malhada roncava alto.
Frank não sabia que pítons roncavam. Esperava não tê-lo feito quando assumira a forma de uma na noite anterior.
— Deite a sua amiga aqui — instruiu o homem de jeans.
Frank colocou Hazel cuidadosamente na cama. Ele pegou sua espada e tentou deixá-la confortável, mas ela estava tão inerte quanto um espantalho. Sua pele definitivamente assumia um tom esverdeado.
— O que eram aquelas coisas bovinas? — perguntou Frank. — O que fizeram com ela?
— São catóblepas — disse o anfitrião. — Significa que olham para baixo. São chamados assim porque...
— Estão sempre olhando para baixo — Nico deu um tapa na própria testa. — Claro, eu me lembro de ter lido sobre eles.
Frank olhou feio para Nico.
— Agora você lembra?
Nico encarou o chão, e sua cabeça ficou quase tão baixa quanto a de um catóblepa.
— Eu, hã... costumava jogar aquele jogo de cartas idiota quando era mais novo. Mitomagia. O catóblepa era uma das cartas de monstro.
Frank piscou.
— Já joguei Mitomagia. Nunca vi essa carta.
— Ela vinha na expansão Africanus Extreme.
— Ah.
O anfitrião pigarreou.
— Vocês dois, hã, já saíram do surto de nerdice?
— Certo, desculpe — murmurou Nico — de qualquer modo, os catóblepas têm hálito e olhar venenosos. Eu achava que só viviam na África.
O homem de jeans deu de ombros.
— É a terra natal deles. Foram acidentalmente trazidos para Veneza há centenas de anos. Vocês já ouviram falar em São Marcos?
Frank queria berrar de frustração. Não via como aquilo podia ser relevante, mas, se o seu anfitrião podia curar Hazel, decidiu que talvez fosse melhor não aborrecê-lo.
— Santos? Não fazem parte da mitologia grega.
O homem de jeans riu.
— Não, mas São Marcos é o padroeiro desta cidade. Ele morreu no Egito há muito tempo. Quando os venezianos se tornaram poderosos... bem, relíquias de santos eram uma grande atração turística na Idade Média. Os venezianos decidiram roubar os restos mortais de São Marcos e trazê-los para a sua grande igreja de San Marco. Eles contrabandearam o corpo em um barril de carne de porco em conserva.
— Isso é... nojento — disse Frank.
— Sim — concordou o sujeito, com um sorriso — o problema é que você não pode fazer algo assim sem sofrer as consequências. Involuntariamente, os venezianos contrabandearam algo mais para fora do Egito: os catóblepas. Vieram a bordo do navio e têm procriado como ratos desde então. Adoram as raízes mágicas venenosas que crescem por aqui, plantas do pântano fedorentas que brotam dos canais. Isso torna o hálito deles ainda mais venenoso! Os monstros costumam ignorar os mortais, mas semideuses... ainda mais no caminho deles...
— Já entendi — disse Frank rispidamente. — Você pode curá-la?
O homem encolheu os ombros.
— Talvez.
— Talvez?
Frank precisou usar toda sua força de vontade para não estrangular o sujeito. Ele levou a mão às narinas de Hazel. Não podia sentir sua respiração.
— Nico, por favor, me diga que ela está fazendo aquele negócio de transe de morte, como você fez na jarra de bronze.
Nico fez uma careta.
— Não sei se Hazel pode fazer isso. Tecnicamente, o pai dela é Plutão, não Hades, então...
— Hades! — exclamou o anfitrião. Ele se afastou, olhando para Nico com desagrado. — Então é esse o cheiro que estou sentindo. Filhos do Mundo Inferior? Se eu soubesse disso, jamais os teria deixado entrar!
Frank se levantou.
— Hazel é uma boa pessoa. Você prometeu que a ajudaria!
— Eu não prometi.
Nico sacou a espada e rosnou:
— Ela é minha irmã. Eu não sei quem você é, mas se pode curá-la, então precisa ajudar, ou eu juro pelo Rio Estige...
— Ah, blá-blá-blá!
O homem fez um gesto de desprezo com a mão. De repente, no lugar de Nico di Angelo surgiu um vaso de planta com um metro e meio de altura, folhas verdes pendentes, tufos de palha e meia dúzia de espigas maduras de milho amarelo.
— Pronto — disse o homem, apontando para o pé de milho — não recebo ordens dos filhos de Hades! Vocês deviam falar menos e ouvir mais. Pelo menos agora você não tem mais boca.
Frank tropeçou na cama.
— O que você fez... por que...?
O homem ergueu uma sobrancelha. Frank soltou um gritinho que não soou muito corajoso. Estivera tão preocupado com Hazel que havia esquecido o que Leo dissera sobre o sujeito que estavam procurando.
— Você é um deus — lembrou-se Frank.
— Triptólemo — confirmou o homem com uma reverência — meus amigos me chamam de Trip, então não me chame assim. E se você for outro filho de Hades...
— Marte! — disse Frank rapidamente. — Filho de Marte!
Triptólemo fungou.
— Bem... não é muito melhor. Mas talvez você mereça algo mais do que um pé de milho. Que tal um sorgo? Sorgos são muito bonitos.
— Espere! — implorou Frank. — Nós viemos em paz. Trouxemos um presente. — Bem devagar, ele enfiou a mão na mochila e pegou o livro com capa de couro. — Isso é seu?
— Meu almanaque! — Triptólemo sorriu e aceitou o livro. Ele folheou as páginas e começou a dar pulinhos. — Ah, mas isso é fabuloso! Onde o encontraram?
— Hum, Bolonha. Foram aqueles... — Frank se lembrou de que não deveria mencionar os anões — ... monstros terríveis. Arriscamos as nossas vidas, mas sabíamos que era importante para você. Então, talvez pudesse, quem sabe, trazer Nico de volta ao normal e curar Hazel.
— Hein?
Trip ergueu os olhos do livro. Estivera alegremente recitando trechos para si mesmo, algo sobre a época de plantio de nabos. Frank desejou que Ella, a harpia, estivesse ali. Ela se daria muito bem com aquele cara.
— Ah, curá-los? — exclamou Triptólemo de modo desaprovador. — Estou grato pelo livro, é claro. E definitivamente posso deixar que você vá embora, filho de Marte. Mas tenho um problema de longa data com Hades. Afinal, devo meus poderes divinos a Deméter!
Frank vasculhou a memória, mas era uma tarefa difícil com as vozes gritando em sua cabeça e o veneno do catóblepa deixando-o tonto.
— Ah, Deméter — disse ele — a deusa das plantas. Ela... ela não gosta de Hades, porque... — Subitamente ele se lembrou de uma velha história que ouvira no Acampamento Júpiter. — Sua filha, Prosérpina...
— Perséfone — corrigiu Trip. — Prefiro a forma grega, se não se importa.
Mate-o!, gritou Marte.
Adoro esse cara!, retrucou Ares. Mas mate-o assim mesmo!
Frank decidiu não se ofender. Não queria ser transformado em um pé de sorgo.
— Tudo bem. Hades raptou Perséfone.
— Exatamente! — disse Trip.
— Então... Perséfone era sua amiga?
— Na época eu era apenas um príncipe mortal — desdenhou Trip. — Perséfone não teria me notado. Mas quando sua mãe, Deméter, foi atrás dela, procurando por toda a Terra, muitas pessoas se recusaram a ajudar. Hécate iluminou seu caminho à noite com tochas. E eu... bem, quando Deméter veio à minha propriedade na Grécia, dei a ela um lugar para ficar. Eu a consolei, alimentei e ofereci a minha ajuda. Na ocasião, não sabia que era uma deusa, mas minha boa ação valeu a pena. Mais tarde, Deméter me recompensou tornando-me deus da agricultura!
— Uau — exclamou Frank. — Agricultura. Parabéns.
— Eu sei! Muito legal, não é? De qualquer modo, Deméter nunca se deu bem com Hades. Então, naturalmente, você sabe, tenho que tomar o partido de minha deusa padroeira. Filhos de Hades, nem pensar! Na verdade, um deles... Sabe aquele rei cita chamado Linceu? Então, quando eu tentei ensinar agricultura para seus conterrâneos, ele matou a minha píton da direita!
— Sua... píton da direita?
Trip foi até a carruagem alada e pulou nela. Então, puxou uma alavanca, e as asas começaram a bater. A píton malhada na roda esquerda abriu os olhos e começou a se mexer, enrolando-se em volta do eixo como uma mola. A carruagem entrou em movimento, mas a roda direita ficou parada, o que fez com que Triptólemo girasse em círculos; a carruagem batia as asas e subia e descia como um carrossel defeituoso.
— Viu? — perguntou ele, ainda girando. — Não funciona! Desde que perdi minha píton da direita, não pude mais disseminar a agricultura, pelo menos não pessoalmente. Agora, preciso recorrer a cursos on-line.
— O quê?
Assim que perguntou, Frank se arrependeu.
Trip pulou da carruagem enquanto esta ainda girava. A píton desacelerou até parar e voltou a roncar. Trip correu até a bancada de computadores. Tocou nos teclados e as máquinas despertaram. Os monitores exibiram um site em marrom e dourado com a imagem de um fazendeiro feliz vestindo uma toga e um boné John Deere e empunhando uma foice de bronze em um campo de trigo.
— Universidade de Agricultura Triptólemo — anunciou com orgulho. — Em apenas seis semanas, você pode obter o seu bacharelado na emocionante e vibrante carreira do futuro: a agricultura!
Frank sentiu uma gota de suor escorrer pelo seu rosto. Não se importava com aquele deus maluco, sua carruagem movida a cobras ou seu curso universitário on-line. Mas Hazel estava ficando cada vez mais verde. Nico tinha virado um pé de milho, e ele estava sozinho.
— Veja. Nós recuperamos o seu almanaque. E meus amigos são muito legais. Não são como os outros filhos de Hades que você conheceu. Então, se houver alguma maneira de...
— Ah! — Trip estalou os dedos. — Entendi aonde você quer chegar!
— Hã... entendeu?
— Claro! Se eu curar a sua amiga Hazel e fizer o outro, Nicholas...
— Nico.
— ... voltar ao normal...
Frank hesitou.
— Sim?
— Então, em troca, você ficará comigo e abraçará a agricultura! Um filho de Marte como meu aprendiz? É perfeito! Que grande porta-voz você será. Podemos transformar espadas em arados e nos divertir muito!
— Na verdade...
Frank tentava desesperadamente bolar um plano. Ares e Marte gritaram em sua cabeça: Espadas! Armas de fogo! Grandes explosões!
Se recusasse a oferta de Trip, o sujeito provavelmente se ofenderia e ele acabaria como um pé de sorgo, trigo ou alguma outra cultura rentável.
Se fosse a única maneira de salvar Hazel, então tudo bem, aceitaria as exigências de Trip e se tornaria um agricultor. Mas essa não podia ser a única maneira. Frank se recusava a acreditar que tinha sido escolhido pelas Parcas para integrar aquela missão apenas para acabar estudando o cultivo de nabo em um curso on-line.
Seus olhos se voltaram para a carruagem quebrada.
— Tenho uma proposta melhor. Eu posso consertar isso.
O sorriso de Trip desapareceu.
— Consertar... a minha carruagem?
Frank teve vontade de se matar. Que ideia era aquela? Ele não era Leo. Ele nem mesmo conseguira desvendar aquele par de algemas chinesas estúpidas. Mal conseguia trocar as pilhas de um controle remoto de tevê. Não poderia consertar uma carruagem mágica!
Mas algo lhe dizia que era a sua única chance. Aquela carruagem era a única coisa que Triptólemo realmente desejava.
— Descobrirei uma forma de consertar a carruagem — ofereceu. — Em troca, você cura Nico e Hazel e nos deixa ir embora. E... e nos dá qualquer ajuda que puder para derrotarmos as forças de Gaia.
Triptólemo riu.
— O que o faz pensar que posso ajudá-lo com isso?
— Hécate nos disse que podia — afirmou Frank. — Ela nos mandou para cá. Ela... ela decidiu que Hazel é uma de suas favoritas.
O rosto de Trip empalideceu.
— Hécate?
Frank esperava não estar exagerando. Não precisava que Hécate também ficasse brava com ele. Mas se Triptólemo e Hécate eram amigos de Deméter, talvez isso convencesse Trip a ajudar.
— A deusa nos guiou até o seu almanaque em Bolonha — contou Frank. — Ela queria que nós o devolvêssemos a você porque... bem, ela deve saber que você tem algum conhecimento que pode nos ajudar a atravessar a Casa de Hades em Épiro.
Trip assentiu com a cabeça bem devagar.
— Sim. Entendi. Sei por que Hécate o enviou para mim. Muito bem, filho de Marte. Encontre uma maneira de consertar a minha carruagem. Se conseguir, farei tudo o que me pedir. Caso contrário...
— Já sei — resmungou Frank. — Meus amigos morrem.
— Isso mesmo — disse Trip alegremente. — E você dará um belo pé de sorgo!
Capítulo XX - Frank
FRANK SAIU TROPEÇANDO DA CASA NEGRA. A porta se fechou atrás dele, e o semideus se encostou na parede, cheio de culpa. Por sorte os catóblepas tinham ido embora, senão havia grandes chances de que Frank ficasse ali sentado e deixasse que o pisoteassem. Ele merecia.
Havia abandonado Hazel lá dentro, agonizando indefesa, à mercê de um deus agricultor louco.
Mate os agricultores!, gritou Ares em sua cabeça.
Volte para a legião e lute contra os gregos!, exclamou Marte. O que estamos fazendo aqui?
Matando agricultores!, gritou Ares em resposta.
— Calem a boca! — gritou Frank. — Os dois!
Duas velhas senhoras com sacolas de compras passando ali perto olharam estranho para Frank, murmuraram algo em italiano e continuaram a andar.
Arrasado, Frank olhava para a espada de cavalaria de Hazel caída aos seus pés, ao lado de sua mochila. Ele poderia voltar correndo para o Argo II e chamar Leo. Talvez o filho de Hefesto pudesse consertar a carruagem.
Mas, por algum motivo, Frank sabia que aquele não era um problema para Leo resolver. Era tarefa de Frank. Ele tinha de provar o seu valor. Além do mais, a carruagem não estava exatamente quebrada. Não havia nenhum problema mecânico. Apenas faltava uma serpente.
Frank poderia se transformar em uma píton. Talvez o fato de ele ter despertado naquela manhã como uma serpente gigante tivesse sido um sinal dos deuses. Não queria passar o resto da vida girando a roda da carruagem de um agricultor, mas se isso significasse salvar a vida de Hazel...
Não. Tinha que haver outra maneira.
Serpentes, pensou Frank. Marte.
Será que seu pai tinha alguma ligação com serpentes? O animal sagrado de Marte era o javali, não a serpente. Ainda assim, Frank tinha certeza de ter ouvido algo certa vez...
Só conseguia pensar em uma pessoa a quem perguntar e, relutante, abriu a mente para as vozes do deus da guerra.
Preciso de uma serpente, disse. Como?
Ha, ha!, gritou Ares. Sim, a serpente!
Como aquele Cadmo desprezível, disse Marte. Nós o castigamos por ter matado o nosso dragão!
Os dois começaram a gritar tanto que Frank pensou que sua cabeça fosse explodir.
— Tudo bem! Parem!
As vozes se aquietaram.
— Cadmo — murmurou Frank. — Cadmo...
Ele se lembrou da história. O semideus Cadmo matara um dragão que por acaso era filho de Ares. Frank não queria nem saber como o deus da guerra acabara tendo um filho dragão, mas o fato é que, como punição, Ares transformou Cadmo em uma serpente.
— Então você pode transformar os seus inimigos em serpentes — disse Frank — é disso que preciso. Agora tenho que encontrar um inimigo. Então, vou precisar que você o transforme em uma serpente.
Pensa que eu faria isso por você?, rugiu Ares. Você não provou o seu valor!
Apenas um grande herói poderia pedir tal graça, disse Marte. Um herói como Rômulo!
Romano demais!, gritou Ares. Diomedes!
Nunca!, retrucou Marte. Aquele covarde foi derrotado por Hércules!
Horácio, então, sugeriu Marte.
Ares ficou em silêncio. Frank sentiu-o concordar, de má-vontade.
— Horácio — disse Frank. — Tudo bem. Se é isso que você quer, provarei que sou tão bom quanto Horácio. Hã... o que ele fez?
Imagens inundaram a mente de Frank. Ele viu um guerreiro solitário em uma ponte de pedra, enfrentando todo um exército que se reunia do outro lado do Rio Tibre.
Frank se lembrou da lenda. Horácio, o general romano que sozinho detivera uma horda de invasores, sacrificando-se naquela ponte para impedir que os bárbaros atravessassem o Tibre. Ao dar tempo para que seus companheiros romanos concluíssem as suas defesas, ele salvou a República.
Veneza foi invadida, disse Marte, como Roma está prestes a ser. Purifique-a!
Destrua a todos! disse Ares. Crave sua espada no coração de cada um deles!
Frank voltou a ignorar as vozes. Ele olhou suas mãos e ficou surpreso por não estarem tremendo.
Pela primeira vez em muitos dias, seus pensamentos clarearam. Ele sabia exatamente o que precisava fazer. Ainda não sabia como faria aquilo. Tinha grandes chances de morrer, mas precisava tentar. A vida de Hazel dependia disso.
Ele guardou a espada de Hazel no cinto, transformou a sua mochila em uma aljava e arco, e correu em direção à praça onde lutaria contra os monstros bovinos.
* * *
O plano tinha três fases: perigosa, muito perigosa, e super ultra mega perigosa.
Frank parou ao lado do poço de pedra. Não havia catóblepas à vista. Ele sacou a espada de Hazel e a usou para erguer alguns seixos do calçamento, desenterrando um grande emaranhado de raízes pontiagudas. Os tentáculos se esticaram, exalando o fedorento vapor verde enquanto se arrastavam em direção aos pés de Frank.
O semideus ouviu ao longe o urro de um catóblepa. Outros se seguiram, vindos de todas as direções. Frank não tinha certeza de como os monstros poderiam saber que ele estava roubando a sua comida favorita, talvez tivessem apenas um excelente olfato.
Agora, teria que ser rápido. Frank cortou um longo pedaço de vinha e a amarrou em um dos passadores de sua calça, tentando ignorar o ardor e a coceira nas mãos. Logo, ele tinha um cinto brilhante e fedorento de ervas venenosas. Oba.
Os primeiros catóblepas chegaram à praça galopando e urrando de ódio. Os olhos verdes brilhavam sob suas jubas. Seus longos focinhos sopravam nuvens de gás, o que os fazia parecerem máquinas a vapor peludas.
Frank preparou uma flecha. Sentiu uma momentânea pontada de culpa. Aqueles não eram os piores monstros que encontrara. Tratava-se basicamente de ruminantes que por acaso eram venenosos.
Mas Hazel estava morrendo por causa deles, lembrou-se.
Disparou a flecha. O catóblepa mais próximo caiu, desintegrando-se em poeira. Frank preparou uma segunda flecha, mas o resto da manada já estava quase em cima dele. E outros catóblepas chegavam à praça pela direção oposta.
Frank se transformou em leão. Deu um rugido desafiador e saltou em direção ao arco, pulando por cima do segundo rebanho. Os dois grupos de catóblepas se chocaram, mas logo se recuperaram e passaram a persegui-lo.
Frank não tinha certeza se as raízes ainda teriam cheiro depois que ele mudou de forma. Normalmente, suas roupas e pertences meio que se misturavam à sua forma animal, mas pelo visto ainda cheirava a um suculento e venenoso jantar. Toda vez que passava por um catóblepa, o monstro rugia indignado e se juntava ao desfile do Mate o Frank!
Entrou em uma rua maior e abriu caminho entre a multidão de turistas. Não sabia que cena os mortais estariam vendo. Talvez um gato sendo perseguido por uma matilha de cães. Pessoas xingaram Frank em uns doze idiomas diferentes. Cones de sorvete foram derrubados. Uma mulher deixou cair uma pilha de máscaras de carnaval. Um sujeito foi parar dentro do canal.
Quando Frank olhou para trás, havia no mínimo uns vinte monstros em seu encalço, mas ele precisava de mais. Precisava de todos os monstros de Veneza, e precisava manter os que vinham atrás dele furiosos.
Encontrou um espaço no meio da multidão e voltou à forma humana. Sacou a espata de Hazel, que nunca fora a sua arma preferida, mas ele era grande e forte o bastante para que a pesada espada de cavalaria não fosse problema. Na verdade, estava contente com a arma de alcance mais longo. Golpeou com a lâmina de ouro, destruindo o primeiro catóblepa e deixando os outros se amontoarem à sua frente.
Tentou evitar encará-los, mas podia sentir os olhares dos monstros queimando sua pele. Imaginou que se todas aquelas criaturas soprassem ao mesmo tempo a nuvem venenosa resultante seria suficiente para derretê-lo. Os monstros avançavam e se chocavam uns nos outros.
Frank gritou:
— Vocês querem as minhas raízes venenosas? Então venham pegá-las!
Transformou-se em um golfinho e saltou no canal. Torcia para que os catóblepas não soubessem nadar. No mínimo, pareciam relutantes em segui-lo, e ele não podia culpá-los. O canal era nojento, fedorento, salgado e tão quente quanto uma sopa, mas Frank o atravessou, esquivando-se de gôndolas e lanchas, parando de vez em quando para lançar insultos na língua dos golfinhos aos monstros que o seguiam pelas calçadas. Quando chegou à doca de gôndolas mais próxima, Frank voltou à forma humana, matou mais alguns catóblepas, para mantê-los enfurecidos, e saiu correndo.
E assim foi.
Após algum tempo, caiu em uma espécie de transe. Atraía mais monstros, dispersava mais multidões de turistas e conduzia seu então enorme séquito de catóblepas pelas ruas sinuosas da velha cidade. Sempre que precisava escapar rapidamente, mergulhava em um canal como um golfinho ou se transformava em uma águia e saía voando, mas nunca se colocava muito longe de seus perseguidores.
Cada vez que os monstros pareciam estar perdendo o interesse, Frank parava em um telhado, pegava o arco e abatia alguns catóblepas no centro do rebanho. Balançava o cinto de plantas venenosas e insultava o mau hálito dos monstros, provocando-os até ficarem furiosos.
Em seguida, continuava a correr.
Voltou por onde veio. E se perdeu. Em dado momento, dobrou uma esquina e deu de cara com o final do cortejo que o perseguia. Deveria estar esgotado, mas de algum modo encontrou forças para continuar, o que era bom. A parte mais difícil ainda estava por vir.
Frank até viu algumas pontes, mas achou que não serviriam. Uma era elevada e completamente coberta; não havia como fazer os monstros se espremerem por ela. A rua estava cheia de turistas. Mesmo que os monstros ignorassem os mortais, aquele gás venenoso não podia ser muito benéfico. Quanto maior o rebanho de monstros, mais mortais seriam empurrados para o lado, jogados na água ou pisoteados.
Finalmente Frank viu algo que serviria. Pouco mais à frente, depois de uma grande praça, uma ponte atravessava um dos canais mais largos. Era feita de madeira, em um arco de vigas entrecruzadas, como uma antiga montanha-russa, com cerca de cinquenta metros de comprimento.
Do alto, Frank, em forma de águia, não viu nenhum monstro do outro lado. Todos os catóblepas em Veneza pareciam ter se juntado ao rebanho e avançavam pelas ruas atrás dele enquanto os turistas gritavam e se dispersavam, talvez pensando terem sido pegos no meio de uma correria de cães de rua.
A ponte estava vazia. Era perfeito.
Frank desceu e retomou a forma humana. Então correu até o meio da ponte – lugar onde esta se estreitava – e jogou a isca de raízes venenosas para trás.
Quando o rebanho de catóblepas alcançou o início da ponte, Frank sacou a espata de ouro de Hazel.
— Venham — gritou. — Vocês querem saber o valor de Frank Zhang? Venham!
Ele se deu conta de que não estava gritando apenas para os monstros. Extravasava semanas de medo, raiva e ressentimentos. As vozes de Marte e Ares se juntaram à dele. Os monstros avançaram. A visão de Frank ficou vermelha.
Mais tarde, não conseguiu se lembrar dos detalhes com clareza. Matou monstros até ficar com pó amarelo na altura dos tornozelos. Sempre que ficava encurralado e as nuvens de gás começavam a sufocá-lo, mudava de forma, tornando-se um elefante, um dragão, um leão, e cada transformação parecia limpar os seus pulmões, dando-lhe uma nova explosão de energia.
Sua mudança de forma se tornou tão fluida que era capaz de iniciar um ataque com a espada em forma humana e terminar como um leão, arranhando o focinho de um catóblepa com suas garras.
Os monstros batiam com os cascos no chão. Exalavam gás e encaravam para Frank com seus olhares venenosos. Ele deveria ter morrido. Deveria ter sido pisoteado. Mas, de alguma forma, manteve-se de pé, ileso, e desencadeou um furacão de violência.
Não sentiu qualquer tipo de prazer naquilo, mas também não hesitou. Apunhalou um monstro e decapitou outro. Transformou-se em um dragão e cortou um catóblepa ao meio. Em seguida, virou elefante e esmagou três dos monstros de uma vez com as patas. Ele ainda via tudo em vermelho, e percebeu que seus olhos não o estavam enganando. Seu corpo brilhava, rodeado por uma aura rosada.
Não entendia por quê, mas continuou lutando até que sobrou apenas um monstro. Frank enfrentou-o com a espada desembainhada. Estava ofegante, suado, coberto de poeira de monstro, mas não estava ferido.
O catóblepa rosnou. Não devia ser o mais inteligente do rebanho. Apesar de centenas de seus irmãos terem acabado de morrer, o animal não recuou.
— Marte! — gritou Frank. — Provei o meu valor. Agora, preciso de uma serpente!
Frank duvidava que alguém já tivesse pronunciado tais palavras. Era um pedido meio estranho. Nenhuma resposta veio dos céus. Pela primeira vez em muito tempo, as vozes em sua cabeça ficaram em silêncio.
O catóblepa perdeu a paciência. Investiu contra Frank, deixando-o sem escolha. O semideus golpeou de baixo para cima. Assim que a lâmina o atingiu, o catóblepa desapareceu em um clarão vermelho-sangue. Quando a visão de Frank voltou ao normal, viu uma píton birmanesa marrom enrolada aos seus pés.
— Muito bem — disse-lhe uma voz familiar.
A poucos metros dali estava seu pai, Marte, usando uma boina vermelha e uniforme verde oliva com a insígnia das Forças Especiais italianas e um rifle de assalto pendurado no ombro. Seu rosto era rígido e anguloso, e ele usava óculos escuros.
— Pai — conseguiu dizer Frank.
Não podia acreditar no que acabara de fazer. O terror começou a atingi-lo. Tinha vontade de chorar, mas achava que não seria uma boa ideia fazer isso na frente de Marte.
— É natural sentir medo — a voz do deus da guerra estava surpreendentemente calorosa, cheia de orgulho — todos os grandes guerreiros têm medo. Só os idiotas e os loucos não o sentem. Mas você enfrentou o seu medo, filho. Fez o que tinha que fazer, como Horácio. Esta foi a sua ponte, e você a defendeu.
— Eu... — Frank não sabia o que dizer. — Eu... eu só precisava de uma serpente.
Marte deu um leve sorriso.
— Sim. E agora você a tem. Sua bravura uniu as minhas formas, grega e romana, mesmo que apenas por um instante. Vá. Salve os seus amigos. Mas ouça, Frank. Seu maior desafio ainda está por vir. Quando enfrentar os exércitos de Gaia no Épiro, sua liderança...
De repente, o deus se curvou, segurando a cabeça. Sua forma tremulou. Seu uniforme se transformou em uma toga, depois em uma jaqueta e uma calça jeans de motociclista. Seu rifle se transformou em uma espada e, em seguida, um lançador de foguetes.
— Agonia! — berrou Marte. — Vá! Depressa!
Frank não fez perguntas. Apesar da exaustão, transformou-se em uma águia gigante, pegou a píton com suas garras enormes e alçou voo.
Quando olhou para trás, viu um cogumelo atômico em miniatura no meio da ponte, com anéis de fogo irradiando do centro, e duas vozes – Marte e Ares – gritaram:
— Nããão!
Frank não sabia bem o que acabara de acontecer, mas não tinha tempo para pensar naquilo. Sobrevoou a cidade, agora sem monstros, e se dirigiu à casa de Triptólemo.
* * *
— Você conseguiu! — exclamou o deus agricultor.
Frank o ignorou. Invadiu La Casa Nera, arrastando a píton pela cauda como um estranho saco de Papai Noel, e a soltou perto da cama.
Ajoelhou-se ao lado de Hazel.
Ainda estava viva. Verde e trêmula, mal respirando, mas viva. Quanto a Nico, ainda era um pé de milho.
— Cure-os — disse Frank. — Agora.
Triptólemo cruzou os braços.
— Como vou saber se a serpente vai funcionar?
Frank rangeu os dentes. Desde a explosão na ponte, as vozes do deus da guerra pararam de gritar em sua cabeça, mas ele ainda sentia a raiva de ambos, fundidas, agitando-se dentro dele. Fisicamente, também se sentia diferente. Será que Triptólemo tinha ficado mais baixo?
— A serpente é um presente de Marte — rosnou Frank. — Vai funcionar.
Como se esperando a deixa, a píton birmanesa deslizou até a carruagem e se enroscou na roda direita. A outra serpente acordou. Elas se entreolharam, tocaram o focinho e então moveram as rodas ao mesmo tempo. A carruagem andou para a frente, batendo as asas.
— Viu? — disse Frank. — Agora, cure os meus amigos!
Triptólemo deu um tapinha no próprio queixo.
— Bem, obrigado pela serpente, mas não estou gostando do seu tom de voz, semideus. Talvez eu o transforme em...
Frank foi mais rápido. Agarrou Trip e o empurrou contra a parede, apertando a garganta do deus.
— Pense bem no que vai dizer — advertiu Frank, incrivelmente calmo — ou, em vez de enfiar a minha espada em um arado, vou cravá-la em sua cabeça.
Triptólemo engoliu em seco.
— Sabe... acho que vou curar os seus amigos.
— Jure pelo Rio Estige.
— Juro pelo Rio Estige.
Frank o soltou. Triptólemo tocou a garganta, como se quisesse ter certeza de que ela ainda estava ali. Deu um sorriso nervoso para Frank, passou a uma distância segura dele e saiu correndo para a sala da frente.
— Só estou... só estou colhendo ervas!
Frank observou o deus recolher folhas e raízes e esmagá-las em um pilão. Ele enrolou uma bola verde e gosmenta do tamanho de uma pílula, correu até Hazel e colocou a bola nojenta sob a língua dela.
Instantaneamente, Hazel estremeceu e se sentou, tossindo. Seus olhos se abriram. A pele voltou à cor normal.
Ela olhou em torno, confusa, até ver Frank.
— O quê...?
Frank a abraçou.
— Você vai ficar bem — disse ele, arrebatado. — Está tudo bem.
— Mas... — Hazel agarrou seus ombros e o olhou com espanto. — Frank, o que aconteceu com você?
— Comigo? — Ele se levantou, subitamente desconfortável. — Eu não...
Olhou para baixo e entendeu do que Hazel estava falando. Triptólemo não ficara mais baixo. Era Frank quem estava mais alto. Sua barriga diminuíra. Seu peito parecia mais musculoso.
Frank já tivera surtos de crescimento. Certa vez acordara dois centímetros mais alto do que no dia anterior. Mas aquilo era loucura. Era como se um pouco do dragão e do leão tivesse permanecido nele quando voltou à forma humana.
— Hã... Eu não... Talvez eu possa consertar isso.
Hazel riu com prazer.
— Mas por quê? Você está incrível!
— E-estou?
— Quer dizer, você era bonito antes! Mas agora parece mais velho, mais alto, tão imponente...
Triptólemo suspirou de modo dramático.
— Sim, obviamente algum tipo de bênção de Marte. Parabéns, blá-blá-blá. Agora, já acabamos por aqui?
Frank olhou feio para o deus.
— Ainda não. Cure Nico.
Triptólemo revirou os olhos e apontou para o vaso com a planta e BUM! Nico di Angelo apareceu em uma explosão de palhas de milho.
O garoto olhou em torno, em pânico.
— Eu... eu tive um pesadelo muito esquisito com pipocas. — Ele franziu a testa para Frank. — Por que você está mais alto?
— Está tudo bem — assegurou Frank. — Triptólemo estava prestes a nos dizer como sobreviver na Casa de Hades. Não é mesmo, Trip?
O deus agricultor olhou para o teto, como se perguntasse: Por que eu, Deméter?
— Tudo bem — disse Trip. — Quando chegarem a Épiro, será oferecido a vocês um cálice do qual devem beber.
— Oferecido por quem? — perguntou Nico.
— Não importa — respondeu Trip, mal-humorado. — Mas saibam que está cheio de um veneno mortal.
Hazel estremeceu.
— Então você está dizendo que não devemos beber.
— Não! — exclamou Trip. — Vocês terão que beber, ou nunca serão capazes de atravessar o templo. O veneno vai ligá-los ao mundo dos mortos, permitindo que sigam para os níveis mais baixos. O segredo para sobreviver é... — Seus olhos brilharam. — ... Cevada.
Frank o encarou.
— Cevada.
— Levem um pouco de minha cevada especial que está na sala da frente. Façam bolinhos com ela e comam antes de entrarem na Casa de Hades. A cevada absorverá o pior do veneno, de modo que vocês serão afetados por ele, mas não morrerão.
— Só isso? — perguntou Nico. — Hécate nos mandou até o outro lado da Itália para você nos dizer para comer cevada?
— Boa sorte! — Triptólemo atravessou a sala correndo e pulou em sua carruagem. — E, Frank Zhang, eu o perdoo! Você é corajoso. Se mudar de ideia, minha oferta continua de pé. Adoraria vê-lo se formar em agricultura!
— Claro... — murmurou Frank. — Obrigado.
O deus puxou uma alavanca em sua carruagem. As serpentes-rodas giraram. As asas começaram a bater. No fundo da sala, as portas de garagem se abriram.
— Como é bom poder viajar outra vez! — gritou Trip. — Há tantas terras ignorantes que necessitam de meu conhecimento. Vou ensinar-lhes as glórias da lavoura, da irrigação, da adubação!
A carruagem decolou e saiu da casa enquanto Triptólemo gritava para o céu:
— Avante, minhas serpentes! Avante!
— Isso foi muito estranho — comentou Hazel.
— As glórias da adubação — Nico espanou algumas palhas de milho de seu ombro — podemos sair daqui agora?
Hazel pousou a mão sobre o ombro de Frank.
— Está tudo bem mesmo? Você lutou por nossas vidas. O que Triptólemo o obrigou a fazer?
Frank tentou se conter. Censurou-se por se sentir tão fraco. Era capaz de enfrentar um exército de monstros, mas bastava Hazel ser gentil e ele tinha vontade de entregar os pontos e chorar.
— Aqueles monstros bovinos... os catóblepas que a envenenaram... Tive que destruí-los.
— Isso foi corajoso — disse Nico. — Devia ter o quê? Uns seis ou sete que sobraram daquele rebanho?
— Não, foram todos eles. — Frank pigarreou. — Matei todos os catóblepas da cidade.
Nico e Hazel o encararam em um silêncio atordoado. Frank estava com medo de que duvidassem dele ou começassem a rir. Quantos monstros tinha matado naquela ponte? Duzentos? Trezentos?
Mas viu em seus olhos que os dois acreditavam nele. Eram filhos do Mundo Inferior. Talvez pudessem sentir a morte e a carnificina pela qual passara.
Hazel beijou seu rosto. Agora, tinha que ficar na ponta dos pés para alcançá-lo. Os olhos dela estavam incrivelmente tristes, como se tivesse percebido que algo mudara em Frank, algo muito mais importante do que o crescimento físico repentino.
Frank também sabia. Jamais seria o mesmo. Só não sabia se isso era bom.
— Bem — disse Nico, aliviando a tensão. — Alguém faz ideia de como é a cevada?
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